“As pessoas têm que começar a entender que cultura não é só aquilo que a gente gosta”, diz Tico Santa Cruz em entrevista ao No Palco

Foto: Reprodução/Instagram (@ticostacruz)

Com mais de 20 anos de carreira, a banda Detonautas Roque Clube está entre as maiores do rock nacional. O grupo formado por Tico Santa Cruz, Renato Rocha, Fábio Brasil, DJ Cléston, Philippe e Macca já tem seis discos de estúdio, três DVDs e um EP na bagagem.

Este ano, o grupo lançou o single “Ilumina o Mundo”, em parceria com Pelé MilFlows, e que aborda a temática de prevenção ao suicídio em conjunto com o CVV. Tico Santa Cruz, em entrevista ao No Palco, explica a participação do rapper — “É uma música que foi feita junto com o DJ WAO e queríamos colocar um rapper para fazer uma passagem mais vinculada com essa linguagem. A questão de abordar o tema de prevenção ao suicídio foi o fato de que durante a gravação eu passei por um episódio onde uma pessoa que eu conhecia estava passando por um momento difícil e acabou se desenrolando que a gente fazer uma reflexão a respeito de quantas pessoas próximas ou não poderiam estar passando por momentos de dificuldades e que precisam de ajuda” — explica o vocalista.

A gente entendeu que talvez pudéssemos usar esta canção para abordar a questão da prevenção ao suicídio e da saúde mental, popularizando ainda mais o numero 188, que nos ajudou a construir a narrativa de forma adequada para o videoclipe”.

Tico Santa Cruz

A banda vai se apresentar no Rock In Rio, neste sábado (28), junto com o Pavilhão 9 — “Estamos fazendo essa parceria com o Pavilhão a convite do Zé Ricardo, que é curador do palco Sunset. A expectativa é grande, o Pavilhão também mistura rock com rap e tem um discurso interessante, nós acreditamos que isso soma forças” — diz Tico Santa Cruz.

Este ano o Rock In Rio vai abrir espaço para o funk brasileiro, com diversas apresentações de artistas do gênero. Questionado sobre o preconceito dos brasileiros com estilo, Tico diz: “O Brasil é um pais de diversidade cultural, as pessoas tem que começar a entender que cultura não é só aquilo que a gente gosta. É qualquer forma de manifestação de um povo, uma comunidade, alguma organização social, todos tem o direito de se expressar”.

“As pessoas têm que começar a entender que cultura não é só aquilo que a gente gosta”

Tico Santa Cruz

Ainda no assunto sobre a ‘nova face da música brasileira’ e seus preconceitos, perguntamos ao Tico sobre a declaração de Milton Nascimento (disse que a “música brasileira está uma merda”). O cantor respondeu: “Eu admiro bastante a obra do Milton, acho que ele é um artista fundamental e ele tem direito de opinião. Eu acho que a musica brasileira tem um conteúdo popular e linguagem que o povo entende. Eles exploram uma linguagem que é mais fácil, que é mais rasa do ponto de vista poético. Eu aprendi a respeitar, já fui muito crítico e hoje simplesmente se não gosto, ignoro”.

Em outubro, o Detonautas estará em Porto Alegre para única apresentação no Opinião, dia 25. Os ingressos estão à venda. Mais informações neste site.

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Confira a entrevista com Tico Santa Cruz na integra:

Nos últimos anos vocês apresentaram parcerias com Alcione e Lucas Lucco. Podemos esperar que esta mistura de gêneros seguisse com a banda nos próximos trabalhos?

A gente fez essas misturas nos últimos discos, não só com a Alcione e Lucas Lucco, mas também com Leoni. No nosso último single, a gente misturou com o Pelé MilFlows e acho que é uma tendência forte para poder de alguma maneira oxigenar a banda, através de outros artistas mas sempre no universo do Detonautas. Não sei como será no próximo trabalho, mas estamos sempre abertos a receber outros artistas, poder somar forças e trocar estas experiências que são muito importantes.

A canção “Ilumina o Mundo”, em parceria com Pelé MilFlows, que busca chamar atenção para o tema da valorização da vida. Comente sobre, por favor?

É uma música que foi feita junto com o DJ WAO e queríamos colocar um rapper para fazer uma passagem mais vinculada com essa linguagem. A questão de abordar o tema de prevenção ao suicídio foi o fato de que durante a gravação eu passei por um episódio onde uma pessoa que eu conhecia estava passando por um momento difícil e acabou se desenrolando que a gente fazer uma reflexão a respeito de quantas pessoas próximas ou não poderiam estar passando por momentos de dificuldades e que precisam de ajuda. A gente entendeu que talvez pudéssemos usar esta canção para abordar a questão da prevenção ao suicídio e da saúde mental, popularizando ainda mais o numero 188, que nos ajudou a construir a narrativa de forma adequada para o videoclipe.

O que vocês estão preparando para este encontro inédito com o Pavilhão 9 no Rock In Rio?

Estamos fazendo essa parceria com o Pavilhão a convite do Zé Ricardo, que é curador do palco Sunset. A expectativa é grande, o Pavilhão também mistura rock com rap e tem um discurso interessante, nós acreditamos que isso soma forças.  Uma abordagem da linguagem do Detonautas, que é fazer rock, com a do Pavilhão, que além da verbal tem a cênica, é muito interessante.

O Rock In Rio tem um publico muito diversificado e este ano está dando espaço ao Funk Brasileiro. Em sua opinião, por que ainda há muito preconceito com o gênero?

O Brasil é um país de diversidade cultural, as pessoas tem que começar a entender que cultura não só aquilo que a gente gosta. É qualquer forma de manifestação de um povo, uma comunidade, alguma organização social, todos tem o direito de se expressar. As favelas se expressam através do funk e do rap, é a linguagem que eles encontraram. Eu acho que o Rock in Rio é um festival que transcende essa questão de gêneros, sempre foi assim desde a primeira edição sempre teve diversidade.

Vai ser uma experiência muito interessante, por exemplo, não só pelo Espaço Favela, que é onde tem alguns artistas que estão lutando por seus espaços, mas também a Orquestra misturada com funk, pelo que assiste acho que pode ser uma grande sacada e uma maneira muito interessante de quebrar este preconceito.

Na última semana o Milton Nascimento falou em uma entrevista que a música brasileira “está uma merda”. Você concorda?

Eu admiro bastante a obra do Milton, acho que ele é um artista fundamental e ele tem direito de opinião. Eu acho que a musica brasileira tem um conteúdo popular e linguagem que o povo entende. Eles exploram uma linguagem que é mais fácil, que é mais rasa do ponto de vista poético. Eu aprendi a respeitar, já fui muito critico e hoje simplesmente se não gosto, ignoro.

O momento tenebroso em que vive o país te inspira em compor, mesmo sendo em protesto?

Acho que o Brasil passa por um momento difícil, mas é um momento importante. São com estes acontecimentos que a gente aprende então essa experiência que estamos vivendo no país é para que muita gente aprenda suas responsabilidades na hora de fazer certas escolhas. Eu como um artista que sempre abordei a questão política nas minhas musicas vou continuar abordando, talvez de outras maneiras.

Em todos os discos do Detonautas tem canções de protesto, algumas talvez mais pesadas e outras sutis. Eu acho que é parte do trabalho de um artista fazer uma crônica, um olhar, do que está acontecendo na sociedade e certamente inspiração para fazer musica não vai faltar.