O Buraco do Coelho

Salve, amigos e salve-se quem puder! Vamos começar esta coluna?

Por aqui, vamos abordar alguns temas interessantes. Sobretudo o foco é cultura e comportamento. Porque eu adoro analisar a vida dos outros. Imagina a banda dos outros? Hehehehe.

Aproveito a estréia em novembro, mês de finados, para falar de um defunto conhecido – A música.  A música morreu! Tá. A música não morreu. Os músicos morreram. Tá! Os músicos também não morreram. Mas existem duas realidades hoje em dia: Um Mundo Real e uma Matrix.

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O Mundo Real é composto de pessoas que são agentes e fazem esta roda, que chamamos de Mercado da Música, girar. Eles pagam suas contas tocando ou mesmo, sustentam suas carreiras e mantém a evolução de sua obra. “Obra” sim. É uma construção e uma edificação a sua arte.

A outra, a Matrix, é composta de pessoas que acham que fazem parte do Mercado da Música. São pessoas que acordam um dia com um sonho. Então, procuram realizar este sonho que dura, mais ou menos, o tempo daquela “sesta após o almoço”.

E como não ser assim? Afinal, o público também é formado, basicamente, de dorminhocos preguiçosos.  Gente acomodada que não tem sequer o esforço de procurar um download com qualidade mais elevada.

“Qualidade elevada”, que termo mais sem nexo hoje em dia. Na verdade, “qualidade” é uma palavra quase em desuso no meio da música. Não estou falando em musicalidade, técnica ou gosto pessoal. Falo apenas, nos meios de consumo mesmo. Por exemplo, onde você escuta música, geralmente? No celular? Ou quem sabe no Notebook? Torço para que seja no carro e me esquartejem os metaleiros, torço para que você seja “magal*” e bem riquinho, e tenha um som de qualidade no carrão para poder ouvir aquele subgrave poderoso e aquele Stereo bem aberto da mixagem (isso se for uma boa mixagem, claro). Luxo se você tiver um Home Theater ou quem sabe, um bom fone de ouvido.

Agora, se você é um consumidor comum,  como a maioria dos usuários, você conta com uma condição precária para ouvir música. Mas também, tanto faz. Quem aqui entre nós escuta mais que um minuto e meio de um canção, hoje em dia?

Você, provavelmente, é daqueles que baixa a discografia completa de um artista para procurar “aquela música” que começa  com “tãnananam térutéru tãnanam tãnanam” e em que o cara canta: “Yeah, Yeah, Yeah… Ai raque Ai nogona tchén…”

Então, este consumo rápido, raso, sem conhecimento,  sem seleção e sem valor (afinal, baixou de graça né, amigo?) colabora para que o músico, não precise se preocupar em realizar um grande trabalho. Aquilo que “dá pro gasto” ou ainda o rótulo de “é o que tem”,  são os adjetivos necessários para que a música emplaque no teu playlist.

E é aí que eles surgem: Os acomodados. Músicos acomodados, estimulados por consumidores preguiçosos, apoiados pelas facilidades modernas, pelo imediatismo e pelo conforto.

Vemos o uso da tecnologia prestando um desserviço para o Mercado da Música quando, estimulados pela baixa exigência e pela facilidade em se gravar em home studios, músicos não aperfeiçoam suas obras e optam pela miséria.

Mas qual necessidade de ser ter um trabalho “conceitual” se a exigência, é que a música tenha um padrão igual ou parecido, com algo que já existe?

Qual a necessidade de se gravar e lançar um disco, recheado de canções que se completam e que seguem uma temática definida?

Qual a necessidade de utilizar aquele determinado equipamento, operador por aquele profissional renomado, em um grande estúdio?

E ainda, onde vamos visualizar aquele encarte, com uma concepção artística e um conceito gráfico, que vai ilustrar a cara e dizer qual o estilo do artista ou a identidade visual da obra?

Nem os grandes artistas estão mantendo um padrão ou realizando uma evolução de suas obras. Mesmo eles buscam economia, praticidade e adaptação ao novo padrão de consumo.

Hoje os trabalhos são voltados, basicamente, para a internet e o que se vê é até mesmo os veículos de comunicacão tradicionais em declínio.

Emissoras de rádio e tv voltaram-se para reallity shows, talk shows e programas de bate papo.

E os novos artistas? Bem, eles ainda se dão melhor. Afinal, muitos deles vivem na Matrix, lembram? E grande parte, nem deseja tomar a pílula vermelha.  O que vier é lucro.

Todos querem o reconhecimento mas muitos não têm idéia do que seja uma carreira musical e nem o esforço demandado para se criar uma grande produção. Então, de repente,  aquele materialzinho  despretensioso, que era apenas meia idéia  de parte de uma música, é agregado a uma letra, mal  elaborada que, somada a uma melodia  torta e uma harmonia atravessada, é montada em um computador, com a ajuda de um usuário esperto que tem um certo conhecimento musical. Então, milagrosamente, nasce uma música! Mágico, não?

E se este “trabalho” todo é coroado com uma quantidade significativa de downloads ou mesmo visualizações de um vídeo clipe (afinal, hoje em dia, é barbada fazer um clipe, já que todo mundo é fotógrafo e tem câmera, não é?). Aí teremos um sucesso nas paradas e você, talvez até, escute a música de novo e até o fim.

Mas queria que você, amigo consumidor, soubesse que, apesar de não ter um encarte de Disco Vinil ou de um CD em suas mãos e de não ver as caras que trabalharam na produção que você escuta ou as pessoas que gravaram o material  que você ouve,  existe um ciclo vital para que a música de qualidade chegue até o teu coração.

Por trás disso tudo existe alguém que um dia abriu mão de horas de sono e lazer; dedicou amor, estudo, prática, dinheiro; deu suor, lágrimas; teve dúvidas e dívidas.  Tudo para que você pudesse desfrutar por um minuto e meio daquele “tãnananam térutéru tãnanam tãnanam” que e o cara canta: “Yeah, Yeah, Yeah… Ai raque Ai nogona tchén…”

Estas pessoas são músicos, professores, técnicos, operadores de áudio, engenheiros de áudio, construtores, porteiros, zeladores, gerentes, secretárias, faxineiros, motoristas e outros tantos, que movimentam o Mercado da Música. O Mundo Real existe!

Os outros? São a Matrix: um cara com meia idéia na cabeça e um usuário esperto de PC.

E sabem onde vamos parar? Dominação das Máquinas! Mas isso é assunto para a próxima coluna.

Enquanto isso, gostaria de propor um exercício:

Pegue um CD de preferência, um Disco de Vinil. Coloque em um aparelho de som com um bom par de caixas ou mesmo bons fones de ouvido. Aperte o play.
Abra o encarte e leia as letras.
Leia os créditos e descubra algumas informações: Veja quem grava; quem toca; quem escreve; onde foi gravado; quem mixa, quem masteriza, etc…
Você estará revivendo a história e dando reconhecimento e prestígio a diversas pessoas.
Agradeço em nome delas.

Até a próxima, pessoal.

*Ah… Magal, na minha época, era um cara Mauricinho, Playboy que curte andar de carro com o som alto chamando a atenção.

 

CONTINUA…

Xala Man

Cássio Abreu ou Xalaman é empresário, proprietário do Estúdio e Produtora Navarro. Agitador cultural, músico, compositor, além de Técnico em Eletrônica e Guia de Turismo Nacional. Atuou por mais de uma década como Roadie de diversas bandas do cenário gaúcho e também como operador de áudio em rádios e TVs do Estado. Cursou Jornalismo na Universidade do Vale dos Sinos e áudio no Instituto Gaúcho do Áudio Profissional.