Ficção científica pós-eleições: Aqueles que se afastam de Omelas

Pois, Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil com 55,13 % dos votos válidos e eu não poderia ficar alheio na coluna bissexta que escrevo por aqui. E tanta literatura teria para escrever sobre e lamentar os últimos fatos ocorridos no país: de The Handmaid’s Tale a Blade Runner, de Pedro Páramo a 1984 ou Admirável Mundo Novo, e por aí vai. Podem acusar a literatura de tudo, menos de não ter tentado avisar. Mas para focar, me concentro hoje num conto da escritora norte americana Ursula K. Le Guin, Aqueles que se afastam de Omelas.

Ursula K. Le Guin é uma escritora de ficção cientifica pouco traduzida para o português, mas bastante conhecida pelos seus romances A mão esquerda da escuridão (lançado em 1960 e que fala sobre um planeta no qual a população não apresentava divisões de gênero) e  Os Despossuídos. Em toda sua obra o feminismo é central para suas inquietações, assim como uma preocupação com o futuro; imaginar o futuro para além de um só caminho, por exemplo, capitalismo ou barbárie, ou seja, apontando para a semelhança univitelina entre os dois, o que é fantástico para se pensar na nossa conjuntura. Ursula K. Le Guin nos incita a exercícios de imaginação, para que o imaginar e o sonhar não nos sejam tirados, e assim termos direito a novos futuros que passem longe do novamente vencedor ordem e progresso.

O conto Aqueles que se afastam de Omelas, um texto dos anos 70, tem como núcleo um dilema ético. Omelas é uma cidade aparentemente perfeita… Não, vamos dizer com todas as tintas, é uma cidade perfeita (um lugar onde, por exemplo, o PT, o MST, o MTST e os médicos cubanos foram expulsos). As pessoas vivem felizes e com segurança, há comida e bem estar para todos, as crianças correm saltitantes nas ruas, não há “malandros” vagando por aí, nem “vagabundos” dormindo debaixo de viadutos, ou ‘maconheiros’ pedindo dinheiro para o crack (!); quase o Brasil que o próximo presidente vem prometendo. Le Guin começa o conto com uma procissão, uma procissão bela, idílica, pessoas dançando, uma corrida de cavalos. Sua caracterização de Omelas é sempre de um lugar, digamos, de ordem e progresso, em que essas palavras perigosas e duas-caras tomam conta até mesmo do ar:

 

O ar da manhã era tão clara que a neve ainda coroando os Eighteen Peaks, queimava com o fogo branco-dourado através de milhas de ar iluminados pelo sol, sob o azul escuro do céu. Havia vento suficiente apenas para fazerem flutuar, de vez em quando, os estandartes fincados que marcavam a rota da pista de corrida. No silêncio dos grandes prados verdes pode-se ouvir a música sinuosa pelas ruas da cidade.

 

Maaasssss… Omelas tem um segredo, feio, sujo, cruel, que pode se resumir nas perguntas ‘a felicidade de muitos pode depender da desgraça de alguns? Para a felicidade geral da nação podemos permitir que pessoas sejam torturadas?’ Essa é a máxima não só de governos totalitários, mas como Ursula K. Le Guin genialmente coloca, nos mais democráticos e neoliberais governos atuais onde isso fica muito evidente.

Le Guin, anarquista convicta, acerta em cheio ao basear a felicidade de todos os moradores de Omelas com o sofrimento de uma só pessoa, escancarando algumas das características de nossa época: a volatilidade de nossas percepções, a pouca durabilidade de nossas relações, e a aceitação do sofrimento alheio explicado superficialmente (mas com o aval da racionalidade) como simples causa e efeito. E o conto continua:

 

Todos sabem que ela está lá, todas as pessoas de Omelas (…). Sabem que ela tem que estar lá (…). Todos acreditam que a própria felicidade, a beleza da cidade, a ternura de suas amizades, a saúde de seus filhos (…) até mesmo a abundância de suas colheitas e o clima agradável de seus céus dependem inteiramente do sofrimento abominável da criança (…). Se ela for retirada daquele local horrível e levada para a luz do dia, se for limpa, alimentada e confortada, toda a prosperidade, a beleza e o encanto de Omelas definharão e serão destruídos. São essas as condições.

 

Todos sabem e a vida continua, todos assinam o contrato bem quietinhos e uma vez na vida tem que conhecer a criança, a escolhida para estar num quarto horrível, escuro e assustador, vivendo em meio as suas próprias fezes, chorando, alimentada apenas com água e uma ração nojenta, perguntando o porquê de seu sofrimento sem ter nenhuma resposta. Quase todas as pessoas que visitam a criança na sua solitária continuam suas vidas engolindo em seco e com a consciência limpa dos que aceitam o contrato ‘para termos x temos que sacrificar y independente que y seja a vida de algumas pessoas’; outras, poucas, vão embora e nunca mais voltam, e essas são aquelas que se afastam de Omelas.

Não tenho como terminar minha coluna sem um convite a lerem esse conto e os livros da Ursula K. Le Guin (falecida em janeiro deste ano) e tirarem suas próprias conclusões. Leiam, questionem, prestem atenção nos discursos daqueles que escolheram como seus representantes, nos discursos daqueles que dizem serem nossos representantes. Abaixo, links que levam ao conto original, a uma tradução, e a página da escritora na Wikipédia.

 

Abraços,

Sérgio

https://www.slideshare.net/lrferreira1/contoaqueles-que-se-afastam-de-omelas

http://harelbarzilai.org/words/omelas.txt

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ursula_K._Le_Guin

 

Sergio Barboza

Estudante de Mestrado na UFSC, terminando dissertação sobre Pedro Páramo de Juan Rulfo, apaixonado por livros, bandas de rock dos anos 90, Metá Metá, jazz e café.