Leituras de férias

Geralmente a leitura de férias é algo leve. Levamos para a viagem livros de viagem, biografias, best-sellers, Como receber sempre sim e assemelhados. Talvez um Poe. Ás vezes um Conan Doyle. É mais difícil ler Ulisses na praia, ou Grande Sertão Veredas, Dom Casmurro. Esses livros chegam até nós das mais variadas maneiras, esses, os livros de férias. Lembro-me de uma viagem ao Sul em que levei Na Patagônia de Bruce Chatwin, enlouquecendo com as imagens fantásticas e cruas de uma Patagônia que não existe mais e que provavelmente não existiu. Apenas na minha leitura. Comprei aquele livro numa livraria e acabei levando-o para ler na viagem de férias rumo ao sul. Em outra ocasião, primeira visita a São Paulo, um amigo emprestou O livro amarelo do terminal, da Vanessa Barbara. Ler sobre aquele imenso terminal rodoviário de São Paulo no terminal rodoviário de São Paulo foi inesquecível e divertido.

Tudo isso para dizer da minha leitura de férias por esses dias, livro esse que chegou a mim num passeio por um sebo de São Leopoldo com Éverton Luiz Cidade. Passo uma semana em Magistério visitando meus pais, e entre mar e lagoa, vou rabiscando essa nota e lendo Terra dos Homens, relato da experiência de Antoine de Saint-Exupéry, o autor do Pequeno Príncipe, como piloto no início do século passado. Pinhal-Magistério… um lugar que Saint-Exupéry poderia ter descido… nesses campos, por sobre essas dunas, antes de pequenos quixotes tentarem enfrentar novos moinhos de vento que por aqui, ao longe, fazem do ar, mais uma vez, energia, desta vez elétrica; antes dos fliperamas, dos lixões, da pequena roda gigante no parque, das barraquinhas de capeta e crepe. O livro é maravilhoso do início ao fim. Relatos de pilotos de aviões numa época em que se voava com a ajuda de poucos aparelhos (apenas bússola e rádio às vezes) já é algo por si só intrigante, mas Saint-Exupéry, além de ter sido um ótimo piloto (pelo que se lê nos relatos) era também um ótimo escritor. O livro, dividido em capítulos pequenos também divididos em pequenos trechos, é de uma poesia ímpar. As imagens que consegue trazer do deserto, do mar, da vida nas areias, de um piloto perdido no meio dos Andes, são intraduzíveis aqui. Apenas leiam.

Uma casa velha perto de Concórdia, Argentina, a compra da liberdade de um escravo em Juby, Marrocos, a luta pela vida nas areias do Saara, tudo ganha contornos vívidos e contornos dramáticos sem cair no melodrama chorão. A vida é linda, mas pode acabar ali, na próxima aterrissagem mal sucedida, no próximo passo mal dado, em mais um dia sem água que te devolve à natureza, para ser o pó que volta ao pó, tudo isso Saint-Exupéry desenvolve com maestria, poesia e a dose certa de suspense. Arrastamos os pés nas areias da África, nas neves das montanhas, nos planaltos vemos a luz da fogueira, tudo pela visão poética e perfeita de Saint-Exupéry. Como na parte em que ele vai contar as desventuras e venturas de Bark, o escravo que tem a liberdade comprada por alguns pilotos, que Saint-Exupéry genialmente começa com a frase sempre repetida para ele por Bark: “me esconde num avião para Marrakech”, e aí desenrola essa história incrível com um final mais incrível ainda.

Perto de meus pais e sobrinhos, longe de outras pessoas queridas, escrevo essa notinha tendo o mar ao leste e a lagoa a oeste. Ao sudoeste, uma estação de energia eólica, distante, fria e workaholic, levantam cata-ventos gigantes contra o céu. Entre esses pontos de localização leio, escrevo e brinco com meus sobrinhos carregando Terra dos Homens e uma de suas frases tão marcantes que não me sai mais da cabeça: Não é a distância que mede o afastamento…

Sergio Barboza

Estudante de Mestrado na UFSC, terminando dissertação sobre Pedro Páramo de Juan Rulfo, apaixonado por livros, bandas de rock dos anos 90, Metá Metá, jazz e café.