Divina Tragédia III- Paraíso

Beija Flor
Beija Flor

Paraíso

(…)seria redundância?
Ou apenas a repetição daquilo que já foi dito duas vezes novamente?
Penso que é o bis gêmeo da reiteração recorrente dobrada, no eco da repercussão retumbante.(…)
(Ricardo Kilian) 

Tudo está em tudo tudo está em tudo tudo está em tudo Tudo está em tudo tudo está em tudo tudo está em tudo tudo está em tudo tudo está em tudo tudo está em tudo tudo está em tudo tudo está em tudo Tudo está em tudo Tudo está Tudo está em tudo Tudo está em tudo Tudo está em tudo Tudo está em tudo Tudo está em tudo Tudo está em tudo

    Inferno: reprisada repetição que… passa. Purgatório: é um estar não… estando. Ambos infinitamente redundantes e paradoxais… ao mesmo tempo. O Paraíso é já! Aqui e agora: Com teu corpo adormecido e quente pressionando meu seio febril. O maço de cigarros pousa inerte no bolso do casaco jogado no cão do quarto. Permanecerá assim: Jogado ao chão em meio a outras peças de roupas e ácaros desavisados. Não há sequer vontade de fumar. E estava fumando demasiado ultimamente. Mas agora? Nada. Desejos e ânsias silenciados no fundo do peito. O vício humano e mundano dando espaço e vez para aquilo que sacia a alma. A eternidade poderia escolher aquele momento. Para sempre. Havia paz de espírito e cheiro suave de suor no ar e quentura de corpos e duas respirações pareciam uma e a sede que sentiu num momento seria aplacada quando a outra boca se abrisse em flor exibindo dentespétalas e a saliva oliva fresca da manhã se oferta-se para acalmar qualquer secura de alheios lábios. Lembrou que certa feita ouvira alguém dizer: A eternidade é um pássaro bicando o cume de um monte de bronze para gastá-lo (não cálidos fígados) e quando chegasse ao final dele, de tanto bicá-lo, avistaria mais uma centena de iguais montes; então sim, começaria o momento eterno. Se fosse assim mesmo: Queria ser pássaro no infinito das horas para poder bicar centenas de corpos iguais ao teu. Eis o único desejo: Ter outrem para sempre, jamais perder a sensação de paraíso que tua pele lasciva sugere. Por segurança envolveu ainda mais forte o braço em torno do corpo no dele tatuado.

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    Então de repente aquela sensação de beleza e conforto e realização e… Não soube mais. Sentiu certa insegurança repetida. Sentimento há muito conhecido e redundante em sua existência: Como se a beleza pudesse desfazer-se no instante seguinte. Abraçou tão forte a eternidade, o paraíso do outro corpo, que agora eram dois seres despertos que se olhavam quase estranhos: os olhares contemplavam-se incertos. Sem saberem-se. Nada falaram. Como película reprisada pode ver tudo passar novamente diante dos seus olhos: Haveriam outros encontros tão intensos quanto o primeiro onde o melhor de cada um se exibiria incansável, e haveriam sorrisos intermináveis, falas perfeitas, toques sempre novos, e surpresa nos olhos, e tremores conhecidos do corpo parecendo sempre únicos e… Então de novo. De novo sem novidades: Tudo se repetiria: Viriam outros dias: O tempo voraz devoraria cada alvorecer e eles iriam deitar-se com o cotidiano impregnado nas almas. Discussões viriam ao montes e cansativas. Um sentiria a falta do outro e nada diriam. Dormiriam silenciosos e distantes. juntos porém solitários. Até que.
Só restariam vestígios fragmentados de um que outro momento remetendo a inatingível éden. Por certo período de tempo tudo faria recordar outro toque, alheio cheiro, o retrato de um eterno sorriso fotografado pelas retinas. E mais uma vez como se sua essência fosse parte fundamental de um não se permitir que se perpetua pelo sempre: A repetição: Olá Adeus e quem sabe se talvez acometeria implacável sua alma.
Então: Sentiria uma dor tão forte em seu ventre que se tivesse coragem para ver-se por inteiro enxergaria tétrica ave a consumir seu íntimo e teria a sensação de que aquilo jamais acabaria, embora houvessem janelas em que o sofrimento dava espaço para total incerteza, ausência de tudo, um meio termo eterno. Nessa horas chorava repetidos cigarros até que os suspiros esfumaçados dessem espaço novamente para qualquer sentimento de queima e ardência da alma e não importasse o que tentasse tudo se resumia a suores noturnos, sono interrompido e uma imensa falta de.
No final das contas toda repetição é mesmo uma ofensa. Da dor imensa insinuando castigo eterno, passando pelo meio de tantas aglomeradas metades, até chegar ao exato momento em que teu corpo cansado e nu me sugere perpétua felicidade. Pena de amor é… infinita. Portanto, repetida, igual, a mesma coisa que outra coisa. O paraíso de agora eternamente ameaçado pela factualidade inevitável. Experimentar o sabor do éden e ter a sensação de que o sabor de plenitude e realização para sempre habitar-irão seu ventre só para depois ver tudo ruir, desmoronar, desfazer-se e sentir o amargo das fatalidades reverberar em seu íntimo explodindo em indizíveis vômitos.
Num instante o paraíso desfeito: O insinuante eterno experimentando fragmentais de meias culpas e não saberes, dando lugar há. Num instante o real castigo revelado: Sentir só para depois ter o sentimento arrancado!
Repetindo-se: sentir só para ter o sentimento arrancado. Sentir só para ter o sentimento. Sentir só para ter o. Sentir só para. Sentir só. SENTIR!

Olá Adeus Quem sabe se talvez tudo está em tudo.

(Jonatan O Borges)

Jonatan O Borges

Jonatan O Borges - "Corpos (IN) Versos". – Poeta performático, ator, mediador de leitura (Proler), contador de histórias, editor de conteúdo da Entreverbo Revista, Ativista cultural, filho da lua e ser aberto à possibilidade da existência de tudo.