Divina Tragédia II- Purgatório

Divina Tragédia II

Purgatório 

(…) Cinzas são como seda para um dragão, nunca para um humano, porque a nós lembram destruição e morte, não prazer. Eles trafegam impunes, deliciados, no limiar entre essa zona oculta e a mais mundana. O que não podemos compreender, ou pelo menos aceitar. (…)                                                                                                                                                                                                                           (Caio Fernando Abreu- Os Dragões não conhecem o paraíso) 

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    Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe Quem sabe se talvez Quem Sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe
Reprises repetidas e inacabadas, releituras pela metade, meias fomes quase saciadas, canções em “repeat” sem refrão, quebra cabeças remontados faltando peças, noite de céu limpo sem luar, beijos em conhecidas bocas sem língua ou saliva, coitos no ápice interrompidos, prazer sem entrega só gemidos contidos… Parou. Fitou a ausência de horizontes: 360° graus e só pode distinguir insinuações de formas e meias vontades e ausência de dentes nos sorrisos e… e… Até seu pensamento só evoluía até certo ponto: Suspenso antes da conclusão. Não recordava começos. Tão pouco vislumbrava um fim que justificasse o meio. Só havia ele: O Meio! Tudo metade. Fronteiras indecisas: Ele em cima de um muro em ruínas: Indecisão. Não soube mais ainda. Sentiu uma enorme vontade de gritar, mas o grito encerrou-se antes de. E tudo era meio silêncio ou um quase grito.
Meio sem querer (ou querendo pela metade) quase deixou escapar certo de outrora conhecido pranto que inevitavelmente viria sem lágrimas: Choro não chorado: só sentido: Pela metade. Achou que queria fumar ou só respirar mais fundo ou suspirar mas naquele lusco fusco do quarto não encontrou fósforos. Então percebeu: ele próprio era só metade. Sentiu-se sozinho. Faltando uma parte ou duas ou todas. E embora ainda houvessem certos resquícios de outrem teimosos fixando-se aos átomos e às lembranças perdidas, esquecidas pelos cantos da atmosfera quase densa que a tudo envolvia: Inerte jazia a foto, rasgada e caída, parado no ar invadindo a narina o mesmo cheiro de sempre incomodando o espírito e… e… a lembrança não vinha. Apenas imagens nebulosas invadiam nodosas e de súbito incertas retinas. Sentiu meio isso meio aquilo meio. Algo faltara, faltava, faltará… Teve vontade de, mas não achou os meios.
Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe
Enfiou fundo a unha na carne para talvez saber se tudo não passava de um sonho ruim: qualquer “Q” de dor, sem propriamente doer, mostrou-lhe que não. O pesadelo era real. A realidade fez-se pesadelo. A luz neon da rua que ardia sem se ver, certo contentamento descontente, contrariedades completando-se. Impressões, receios, dúvidas tudo meio misturado e junto ao mesmo tempo remetendo a memórias inválidas. Quase lembrou. Foi quando a brisa convidativa que adentrava pela janela entreaberta trouxe ainda mais forte luzes coloridas misturadas a cheiros indefinidos. Meias luzes, meios odores. Sentiu muito medo ou muita coragem ou apenas sentiu muito. Seu corpo paradoxo estremeceu por todo num instante. Gritos calados e interrompidos por mãos trêmulas acompanharam silêncios inquietantes. Quem sabe talvez caísse. Dúvida. Quem sabe talvez voasse. Meio. Quase soube definir quando toda sua carne impregnava de humanidade o fétido asfalto da noite da cidade. Pendendo, exposto pela metade, de um dos bolsos da calça jeans, perpétuos fósforos jaziam insinuosos. Se fossem encontrados um pouco antes quando meios suspiros ainda…
Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe se talvez Quem sabe se Quem sabe se talvez Quem sabe se…

(Jonatan O Borges)

Jonatan O Borges

Jonatan O Borges - "Corpos (IN) Versos". – Poeta performático, ator, mediador de leitura (Proler), contador de histórias, editor de conteúdo da Entreverbo Revista, Ativista cultural, filho da lua e ser aberto à possibilidade da existência de tudo.