Divina Tragédia-INFERNO

Inferno

 (…) Toda repetição é uma ofensa
 Que uma pena de amor é infinita (…)                                                                                                                            (desconhecido) 

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Olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus                                                                olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus                                                                olá adeus olá adeus  olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus …

   Pensou assim meio sem querer quando escutou aquela frase cantada… Quase chorada. Lembrou da divina comédia de “Dante Alighieri” onde o inferno é representado pela ideia de repetição: Uma coisa repetindo-se infinitamente acaba por se tornar um mal absoluto, concluiu.
E quando te amo assim (agora) urgente, queimando de tanto amor, penso: O nosso amor não é graça-benção-dádiva é um sentimento in/des natural que perpetua-se pelas encarnações e desencarnações. Permanece. Esse sentimento é praga-carma-penitência… E sentir assim com tanta necessidade é queimar-se em um fogo infinito.
Infinito por não limitar-se ao tempo. Com vida própria, desconexo da naturalidade do existir entrega-se há uma existência cansativa e maldosa. Continuar, às vezes, para o bem do humano em ti, deveria ser proibido. O que me/nos mata é esse existir reticente dando sempre a impressão de quê.
Gosto de pensar-me como fogo: Aqueço, conforto, cozinho tua comida para uma mastigação melhor, porém, há sempre um porém, quando sopro em direção de teu âmago ( por mais que tenha carinho por ti ) te queimo,ardo, deixo-te feridas na garganta que te impedem de engolir: O amor é um mastigar eterno sem jamais permitir-se engolir. Amar é abster-se. Abnegarmo-nos. Abrir mão da individualidade. Não posso. Não devo amar. Sou filho da solidão.
Quando te e me vejo e logo vem a imagem de um pergaminho manchado com sangue. Letras miúdas. Dizeres subjetivados. Contrato do diabo por nossas almas. No cabeçário a palavra cabalística: AMOR. Isso que nos sentimos não é. Não pode ser escolha. É obrigação.

Olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá                                                            adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá…

Se me entrego a e te oferto dizeres repetidos é por ter uma certeza obscura da impossibilidade. Ver-te assim à luz da lua chorando teus cigarros dói-me tanto que nem sei dizer… Por saber que você sabe. E sabe que sabe. Pois (isso deve vir mesmo de outra vida) ter que carregar uma pedra montanha acima só pra recomeçar de novo de novo e de novo após ter-se chegado ao topo ou ver-sentir seu fígado consumido consumido consumido eternamente pelo adunco bico de um pássaro: Revela que amar é repetir-se, monotonizar-se. Por amar-te tão e tanto. Por querer da vida o inusitado a surpresa e o inconstante é que penso essas coisas meio sem querer e por sabê-las vindas involuntárias-impensadas-instintivas é que falo-te ininterruptamente. Repetição é ofensa. Pena de amor é infinita.

Olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus olá adeus…

(Jonatan O Borges)

Jonatan O Borges

Jonatan O Borges - "Corpos (IN) Versos". – Poeta performático, ator, mediador de leitura (Proler), contador de histórias, editor de conteúdo da Entreverbo Revista, Ativista cultural, filho da lua e ser aberto à possibilidade da existência de tudo.