Sobre o não saber

Hoje começa uma nova empreitada. As coisas são assim: Elas acontecem! Nem sabemos como. Na verdade nunca sabemos. Os planos, as metas, as projeções tudo de nada serve. A  vida tem suas próprias necessidades e delas nunca sabemos. Não sei ainda ao certo o que farei neste espaço, o que escreverei  na coluna, qual o objetivo  deste espaço. Apenas farei e deixarei com que ela vá acontecendo por si mesma. Sem saber que acontece. Segue o primeiro texto de muitos, se Deus quiser.

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Sobre o não saber 

A imensidão não sabe da imensidão. Não é capaz de reconhecê-la. Por isso a é. Talvez a ignorância a cerca das coisas seja a única maneira de ser-existir em totalidade. Para seguir-se um caminho, às vezes, é preciso não sabê-lo. Simplesmente ir indo ir indo ir indo e permitir-se à imensidão das possibilidades e encontrar umas pedras no meio do caminho, montanhas vezenquando, e mesmo assim continuar continuar continuar até que: Ponto final. Acontece com todos. Uma vez ou outra parecemos retroceder. Diminuímos o ritmo das horas, recuamos no tempo para dar um tempo de nós mesmos e a urgência da existência que está impregnada em nossas almas começa a parecer menos urgente e então percebemos: Não pensar em existir. Não saber que existimos… É permitir-se à existência.

A unção de nossa condição humana com a fé que possuímos de que haja qualquer resquício de divino em nossa humanidade murmura repetidamente em nossos ouvidos calejados de buzinas, sirenes, gritos, funks toscos qualquer coisa tipo: Continuar… Então: continuamos continuamos continuamos… E por sujeitar-se à continuidade o horizonte parece cada vez mais perto, incrivelmente próximo, tocável… Deduzimos suas dimensões, incertas medidas, um edifício, aquela rua, depois a curva fedendo a urina e a ladeira, subi-la como quem desliza e… Pronto. Ali está ela. De novo. A imensidão. Com suas estrelas repetidas e a lua que nunca sabemos qual é, por não importar o tipo de lua, pois o importante é ela estar lá. E se não estivesse? E se não? E se? E? Nunca soube, nem saberei. Você sabe? Se sim guarde o segredo. Que eu quero ficar aqui parado. Parado mesmo. Impotente diante de qualquer coisa bonita e maior. Que não se sabe bonita nem maior, pois é justamente a ignorância que a permite estar além de nós e ser imensa e ser bonita e ser.

A lua depois da ladeira assim tão grande e vermelha ou seria laranja? Nunca sei ao certo. Parece uma boca. Uma boca de puta. Que chama e envolve e hipnotiza e nos deixa em uma espécie de noite. Uma boca que diz, ou antes, apenas parece dizer, com aquela cara safada/treinada: “Eu quero o teu sexo”. E repete diminuindo e pausadamente: “E quero o teu”. “Eu quero o”. “Eu quero”. “EU”. E você vai. Sabendo ser a coisa mais errada do mundo. Sabendo ser a coisa mais certa do mundo. Você vai. Vai. Deixando-se seduzir pela LUA/BOCA de PUTA/IMENSIDÃO. De repente, como quem tropeça, está nu. Nu. Despido de panos e pudores com qualquer coisa em riste que talvez não devesse estar ali, mas está e te faz homem. HOMEM. A palavra assim seca como um gole de cerveja quente. Homem em riste apontando para a mais longínqua estrela… Porém o alvo é LUA/BOCA: Neste instante há uma entrega que ao mesmo tempo possui: Paradoxal… Possuindo e sendo possuído pressiona o véu da noite como violasse um himem. Invade a BOCA/LUA, penetra-a, impele-a provar-te por inteiro e, sem vergonha ou nojo apenas desejo, possui-a… Ou ela te possui. Comem-se. Devoram-se. Animais sedentos e famintos: Consomem-se: De um lado para o outro, de cima para baixo, de frente para trás, de fora para dentro e… Invertem-se: De outro para o lado, de baixo para cima, de fora para dentro, de dentro para dentro… Dentro! Saciam-se na carência um do outro. Regozijam. E há de dentro, humano que és, uma vontade de gritar. Mas ela te lambe os olhos, mastiga as pálpebras, suga as íris, chupa tua alma, te faz lembrar-se do “EU” que quer dizer: Silêncio… E faz-se uma breve, apenas breve quietude, pois humano incontido que és: Grita! GRIta!! GRITA!!! As estrelas retraem-se, o himem/noite distancia-se, a boca/lua cerra os dentes e a puta/imensidão te solta serena, leve, doce e então está só. Sozinho de novo. Sem os mil braços brilhantes a envolver-te e há uma sensação de queda. Você cai. Cai. Vê o chão aproximando-se e por medo de chocar-se contra ele ou por saber que tocando-o, mesmo que de leve, saberá tudo acabado: Grita! Acorda! É tão estranhamente triste acordar gritando e não acordar ninguém. Sem uma boca alheia para perguntar: “O que foi?”.

Sonhos tornarem-se pesadelos é fato comum para algumas existências, e não deveria ser. Com os olhos ainda tateando a atmosfera em busca de fragmentos da realidade consegue direcionar as mãos trêmulas, quase convulsas, para o maço de cigarros em cima do criado mudo e agressivas/instintivas em um ato a insinuar-se derradeiro acendem um cigarro e levam-no em direção à boca seca. Em meio às abstrações formadas pela lentidão da fumaça sendo projetada em direção ao teto a ponta do cigarro ardente e suspensa por sobre a cama parece tão viva e cheia de si, brilhando fumegante e solitária na escuridão do quarto, que parece criar consciência e formular o pensamento da remota  possibilidade de queimar os dedos que a seguram e cair nos lençóis e por fogo em tudo: Nas cobertas, na madeira da cama, no carpete, no criado mudo, nas cortinas e… Criando proporções imensas: Virar um grande incêndio e queimar a casa, a casa ao lado, a casa do outro lado, o quarteirão, o bairro, a cidade, o mundo… É só um cigarro com a ponta em brasa. É só uma ponta em brasa. É só uma ponta. É só uma. É só. É. É uma potencialidade de imensidão. Porém não sabe que é. Jamais saberá. Nunca terá a consciência que é a brasa na ponta de um cigarro em um quarto escuro depois de um sonho na última casa da rua.

O mesmo trêmulo frêmito de vida que a concebeu faz com a ela seja extinta num cinzeiro qualquer, cheio de tantas outras bitucas… Em lentas espirais a fumaça sobe em direção ao todo, espirais cheias de formas imensas que não se sabem imensas nem tão pouco espirais… Mas isso é sobre o não saber… e não sei.

Jonatan O Borges

Jonatan O Borges – “Corpos (IN) Versos”. – Poeta performático, ator, mediador de leitura (Proler), contador de histórias, editor de conteúdo da Entreverbo Revista, Ativista cultural, filho da lua e ser aberto à possibilidade da existência de tudo.