Entrevista com Gabriel Flag, da agência MDIY

Gabriel Flag é músico, produtor, escritor e desenhista. Aqui, levamos um papo sobre suas recentes produções musicais e sobre um romance Bukowskiano em produção.

1.Desde que me interessei por música, rola o papo de que o rock morreu. O que acontece é que o rock virou um nicho. Não é bom que seja assim?

A música sempre teve esses nichos de cultura que o mercado soube explorar muito bem, e é isso que cria uma cena em torno de algo. Portanto, se faz necessário esse tipo de união. Já esse papo antigo e careta de que o rock morreu é pura besteira.

Tem centenas de novas bandas tocando em grandes festivais, ganhando muita atenção e vendendo muito bem, seja aqui no Brasil ou no exterior. Então, se a pessoa é um roqueiro frustrado que parou nos anos 70/80, pode ser mesmo que essa seja a visão da maioria. Mas nós tivemos o retorno do Black Sabbath, ainda temos Deep Purple, Red Hot Chili Peppers, Metallica… Cara, Os Rolling Stones estão aí há quase 60 anos e muito vivos. É verdade que os riffs de guitarra não aparecem (se é que já apareceram) nas mais tocadas do Spotify ou iTunes (Com exceção de Bohemian Rhapsody do Queen), e que o público jovem aderiu à cultura pop e que os solos de guitarra perderam espaço para a música eletrônica. Isso é fato! Mas esses serviços que nós temos hoje, e que servem como base do que é ou não sucesso, são manipulados a favor das três maiores gravadoras do mundo. Se pararmos pra perceber, as músicas que mais estão vendendo nesses serviços, possuem a mesma frequência de graves, o mesmo Beat, o mesmo chorus e delay.

É música industrial. Mas nós estamos falando do mainstream ou de rock and roll? 

Porque rock and roll é atitude. Lady Gaga é rock and roll! Não importa se você toca jazz ou metal. Se não tem uma postura de atitude, não rola! Eu acho que a música rock está bem viva, a rebeldia é que está morrendo.

2. Quais as dualidades e censuras que tu tens que te impor sendo ao mesmo tempo produtor e artista, se existem?

Eu já ouvi uns preconceitos por tocar em uma banda e ser produtor ao mesmo tempo. É meio ridículo essa ignorância, muitas vezes são ditas por pessoas que nem sabem tocar um instrumento. Então eu levo numa boa. Até porque eu sei que hoje em dia se você é artista e não souber gerir sua própria carreira, você está fadado ao fracasso. Então, em alguma hora, seja no início ou no final da carreira, você vai precisar ser o seu próprio manager. O fato é que eu toco guitarra, escrevo, desenho, e vivo pra minha arte. Mas a música sempre foi minha prioridade. É uma forma de se expressar muito complexa e diferente das demais, sabe? Estar lá em cima do palco, tocando guitarra pra uma multidão vidrada, é muito bom! Mas eu não posso viver 24h e 365 dias de música. No tempo livre, eu alterno entre poesia e tinta a óleo, ou qualquer outra coisa que envolva criação.

Basicamente, ser produtor é uma forma de ficar perto da música quando não estou trabalhando nos meus projetos musicais. Eu também conheci muitos produtores, mas que muitas vezes não tem uma visão artística. Então, ser produtor e ao mesmo tempo artista, de certa forma, me dá muito mais vantagem. Porque eu sou meu próprio produto. Eu não sei se existe alguma censura que eu tenha que impor a algo ou alguém, mas, o que posso dizer, é que eu me tornei muito mais exigente em relação a minha arte.

3.Como comercializar a arte (algo necessário) sem vulgarizá-la?

Existe uma diferença entre vender seu trabalho e se vender. Acho que a primeira coisa é você saber dar valor a sua arte.

4.Li recentemente um original que tu me mandou. Muito bom! Conta sobre teus projetos atuais e tua vida até aqui (bandas, eventos, epifanias e desilusões):

Cara, esse romance que tu leu, “O INFERNO DE DANTE”, começou em 2015, logo depois que eu me demiti de um trampo. Eu tava na maior pobreza e decidi escrever um romance decadente e engraçado de um alter ego influenciado por uma narrativa Bukowskiana. A criação do personagem também teve um pouco de influência do Lázaro, no livro Santo Pó/P ¹. 

É basicamente a história de um cara talentoso e azarado, que não leva mais fé na humanidade, mas que ainda assim tem esperança em buscar algum tipo de paraíso que nunca encontra. A história é real. Elas aconteceram de verdade, mas foram sutilmente modificas de uma forma poética pra entreter o leitor.

O romance ainda está em processo de criação. Era pra ter sido finalizado em poucos meses, mas nessa mesma época, fundei minha primeira gravadora e que acabou dando muito certo. Pude viajar e conhecer várias cidades do interior do Rio Grande do Sul, trabalhar com artistas de vários outros estados, e, posteriormente, trabalhar com artistas internacionais, viajando o brasil e produzindo turnês por boa parte da América do sul. Todas essas coisas aconteceram muito rápido, e por falta de tempo, o livro ficou guardado na gaveta. E só agora eu pude voltar a lapidá-lo.  São muitos projetos paralelos em andamento. A minha carreira solo, o projeto musical 1000Eyes, e uma nova banda em andamento. Mas o meu mais novo e maior projeto, e que mais tem tomado o meu tempo no momento é a MDIY.

Uma agência internacional de booking e promoções pra apoiar artistas e pequenos selos, que possui 2 selos próprios, onde faço a distribuição digital dos artistas. Atualmente, possuímos contrato com músicos e bandas do Brasil, Argentina, Dinamarca, Ucrânia, Polônia, Tailândia, Servia, Estados Unidos. Além de parcerias com algumas das principais fábricas de vinil do mundo. 1001STONED & 1001POP , que também são canais no Youtube e que promovem não só os nossos artistas, mas artistas de outras gravadoras, ou que não estão vinculados ao nosso selo. A ideia é construir uma parceria em torno de um público que consome o mesmo tipo de gênero musical. Hoje, os dois canais juntos superam mais de 3 milhões de visualizações e possui uma base de fãs por todo o planeta.

É a 1º gravadora do gênero Stoner Rock/ Acid Rock e rock psicodélico a distribuir música em um sistema Blockchain de descentralização (o mesmo sistema utilizado no processo de Bitcoin e outras moedas digitais). Eu tô sendo pioneiro nisso. Então, é muito legal! O Spotify, Itunes e outros serviços similares, pagam muito pouco ao artista. Uma média de 0.07 – 0.78 centavos de dólar a cada 8 minutos de música tocada.

Já esse novo sistema, permite pagar uma média de 4.57 USD por 8 minutos de música tocada. Dessa forma, se consegue obter um ganho muito maior a cada vez que a música é tocada nessas plataformas. É uma ótima vantagem!

A MDIY possui um serviço completo de criação de estratégia e marketing, serviço de imprensa, booking, prensagem de vinil, CD e duplicação de fitas cassetes.

Nós fizemos a promoção do “ELECTRIC WIZARD – Live Maryland Deathfest” um álbum ao vivo, realizado pela banda britânica Electric Wizard, junto com os selos “It’s Psychedelic Baby”, Witchfinder Records e distribuído pela Creep Purple em fitas cassetes. Esse álbum estava previsto para ser vendido em poucos dias. E com ajuda da MDIY as cópias se esgotaram em menos de 24 horas. E hoje são extremamente raras entre os colecionadores, chegando a valer até 7 vezes mais do que o seu valor original de lançamento.

Outra das nossas diversas parcerias realizadas recentemente é o “NEBULA – Demos & Outtakes 98-02“. Lançamento oficial do último álbum da banda americana NEBULA, que traz faixas raras e inéditas da banda, de 1998 até 2002, com sessões remasterizadas por Jack Endino.

O álbum físico possui edição limitada e está à venda em diversas cores de Vinil. E foi autorizado exclusivamente para esse projeto pela “Heavy Psych Sounds Records”, que é também gravadora do músico Brant Bjork, baterista das bandas, Kyuss e Fu Manchu.

Resumindo, eu diria que é um ótimo momento de realizações pessoais e profissionais.

Link:   www.mdiy.org

 1 Cidade, Everton Luiz. Santo Pó/P. Makbo Editora, 2012.

Everton Cidade

Everton Luiz Cidade é poeta. Autor de Santo Pó/P, O Bonde Transmutóide e QuiÓ. É vocalista da banda Siléste.