Prosinhas 2-Problemas de Memória e Acumulação

Não lembro como aqui cheguei, mas cá estou. Moro num depósito de roupas. Que mesmo com tantas roupas ainda é frio. Lembro que meu nome começa com LUCI… Lúcia, talvez?  Lembro de gritos, espadas  de são Jorge usadas como armas de fogo, choro, recomendações divinas e rompimentos de cabeleiras vastas em mãos delicadas. Grilhões é uma palavra que me assombra. Acho que  eu era um arcanjo, embora agora tão pouco me diz o que seja ser ARCA?ANJO? Mas, cá estou. Meu corpanzil bate em tudo que me rodeia.

Estou sempre com os braços machucados, mas, acho que sempre estive. Eu era belo e esguio, disso me lembro. A vaidade era minha dama de acompanhamento. Agora,  tenho como parceiro o constrangimento e, como inimigo, o espelho. Pois sou tolo. A beleza nunca ruiu com a insatisfação ou com minha imperfeição herdada. Oh, a soberba que me cariou o flanco! Essa ainda divide a noite comigo, enquanto os cães sarnam a pele e os pelos. Não lembro como aqui cheguei, mas cá estou. E atarantado de amor pela dona e pelo dono desse local. A ela, quero proteger e dourar com planetas. A ele, quero destruir com o conhecimento de toda tristeza perecível. Ela me passa açúcar por baixo da porta. Ele me passa cachaça. Daí, meu corpanzil. Os amo com toda catástrofe que o amor enobrece. Só não lembro como aqui cheguei. Lembro que meu nome começa com LUCI…Lúcio, talvez?

Everton Cidade

Everton Luiz Cidade é poeta. Autor de Santo Pó/P, O Bonde Transmutóide e QuiÓ. É vocalista da banda Siléste.