FESTIM/ZIM.1 – por Everton Luiz Cidade

ERA MEU ANIVERSÁRIO

EU BEBIA SOZINHO

POR QUE EU ESTAVA SOZINHO

NÃO HAVIA NEM ADVERSÁRIO

ELE SENTOU, BEBEU DO MEU COPO

SEM OI, SEM CAFUNÉ, SEM CARINHO

“TAVA LHE PROCURANDO

TIVE NA TUA CASA”

MENTIU, ME ANALISANDO

HÁ TEMPOS EU NÃO ESTAVA NA MINHA CASA

FALAMOS DE CINEMA LATINO

NOS EMBEBEDAMOS, EU FIQUEI SOZINHO

COMO SEMPRE ESTAMOS

AH, É VÓRTICE O DESATINO

FUI PASSAR A NOITE COM MEU TIO

EU: MONSTRUOSO AMIGO

ELE: BELO E

ESQUIZOFRÊNICO, A VIDA ÍA EM FIO, A CURA DA DOENÇA

O ESTRAGAVA, COMO FAZ O SOL COM O FIGO

LHE TELEFONEI, NUM CHORO CÊNICO

“ESQUIZOFRENIA É O LANCE DA TUA FAMÍLIA”

RESPONDEU

E O MUNDO SILENCIOU

NUMA GALÁXIA DE IRONIA

MEU TIO MORREU NO MESMO DIA.

2.

O PÁSSARO DA MORTE, É PORTENTOSO EM SEU ALVOROÇO

DE VÔO SUBLIME-NÃO HÁ RANCOR NEM AFETO A QUEM SE REDIME

HÁ DENTES E OSSOS QUE FICAM ACORTINADOS EM CABELOS SOB UM CAROÇO

ANUNCIAÇÃO GASOSA  DO PURIFICAR-SE, QUE A ALMA GOZA

COM O FARDO DEIXADO, O BEIJO COMIDO, O PELO INFLAMADO, O PEITO CAÍDO

O FÍGADO INCHADO, O RIM PARALISADO, O SONHO SUMIDO – O TRAÍRA – O TRAÍDO

SIM, TENHO MEIA VISTA  PERIFÉRICA, SIM, SAQUEAREI SAMARITANOS EM BONDADE HISTÉRICA

SIM, ME RECOLHO, PEÇO FERROLHO COM MEDO QUE SAQUEM QUE A FELICIDADE NÃO É PRA MIM – MAS É CEDO TAMBÉM – EU TENHO SORTE – EU TENHO SORTE – DE NÃO TER SAUDADE

RECLINA ÁGUIA DE CARNAVAL AO SOL, DECLINA DAS REGRAS QUE REGEM OS MORTOS

SEREMOS TÃO MODERNOS QUANDO SEPARARMOS A ALMA DOS CORPOS

GRACIOSOS DE AMOR SUPREMO, MODESTOS EM CORAIS ÚMIDOS

MUNIDOS DE ARTILHARIA NO TÉDIO DE ABRIR FLORES EM ESPAÇO ERMO

MAS É CEDO TAMBÉM – EU TENHO SORTE DE TER UM SANTO FORTE

EU TENHO SORTE DE NÃO TER SAÚDE

BAJULEI A PRIMAVERA, BEIJEI O IMPULSO TOLO DA FELICIDADE

O AMOR É MINHA PRIORIDADE, O AMOR É MINHA RESPONSABILIDADE

AINDA QUE AMIÚDE

AINDA QUE POR AMIZADE.

Everton Cidade

Everton Luiz Cidade é poeta. Autor de Santo Pó/P, O Bonde Transmutóide e QuiÓ. É vocalista da banda Siléste.