A VIDA NOS FOI SERVIDA COMO UMA RECAÍDA – por Everton Luiz Cidade

A VIDA NOS FOI SERVIDA COMO UMA RECAÍDA

 

QUE OS DESVALIDOS BEBAM DESSE CÁLICE

AO MENOS O VINAGRE

DE TODAS MORTES MINHAS

ELA ME PEDIU AMIZADE

COMO QUEM PEDE AÇÚCAR EMPRESTADO

OU UM MILAGRE

DE TODAS MORTES MINHAS

ELA ERA EXTROVERTIDA

E TINHA O PORTE DE QUEM TEM A SORTE DE SARTRE

DE TODAS MORTES MINHAS

ELA FOI COMIGO A MAIS PARECIDA

A MAIS ANSIOSA POR ESTAR SOZINHA

A MAIS PRÁTICA E SIMPÁTICA NUM PISAR DE AVEZINHA

NA CORTESIA DA ETERNIDADE

COM A BOCA DE TODA FOME

A ANGÚSTIA LÚCIDA DE QUEM

DE SI DE SEU SÓ TEM O NOME

DE QUEM QUANDO DIZ A HORA

SÓ SABE TARDE E CEDO

DE TODAS MORTES MINHAS

DE TODAS MORTES MINHAS

O DAR-SE

O DAR-SE.

 

2.

QUE OS AFLITOS NÃO SEJAM MEDIDOS PELOS SEUS MEDOS

QUE OS AFLITOS NÃO SEJAM PUNIDOS PELOS SEUS DESEJOS

AINDA QUE ALHEIOS AO EROTISMO EM SEUS ENSEJOS

QUE OS AFLITOS NÃO SEJAM PUNIDOS DEPOIS DE LEVANTAR AS VIGAS DA HIDRA

AINDA QUE LUXURIADOS PRÓDIGOS EM FADIGAS

QUE OS AFLITOS NÃO SEJAM PUNIDOS POR ESTAREM BÊBADOS

AMARRADOS EM PAPEL PARDO

COM BARBAS DE PÃO E BEBIDA

QUE HADES NOS POUPE DE SUA FÚRIA PELA HONESTIDADE

AINDA QUE TÍMIDA, AINDA QUE A ALEGRIA NOS SEJA UM FARDO

POR NÃO ESTARMOS ACOSTUMADOS.

 

EVERTON LUIZ CIDADE

Everton Cidade

Everton Luiz Cidade é poeta. Autor de Santo Pó/P, O Bonde Transmutóide e
QuiÓ. É vocalista da banda Siléste.