Cidade em Chamas, de Garth Risk Hallberg

 

Como parte dos melhores livros lidos neste 2016 comento aqui Cidade em Chamas, de Garth Risk Hallberg. É como um mergulho em Nova York. Mais especificamente na Nova York dos anos 70, aquela Nova York imortalizada pelas lentes de Camilo José Vergara e pelas letras de Lou Reed, a Nova York dos Ramones e Jim Caroll. Patti Smith passeia aqui e ali pelo livro de mais de mil páginas, mias um personagem no mosaico criado pelo autor. Garth Risk Hallberg consegue um feito: fazer-nos ler todas essas páginas sem nenhum tédio nem cansaço. A atmosfera de Nova York que ele alcança notada por críticos mundo afora é genial, você pode tatear a cidade pelo livro todo, você pode sentir suas ruas, o nascimento do movimento punk latente nas páginas, o cheiro da cidade antes da limpeza urbana-violenta-étnica do final dos anos 80 início dos 90 perpetrada por Rudolf Giuliani. E mesmo que o ritmo e o lirismo da primeira parte não se sustentem durante toda a extensão da obra, Cidade em Chamas é sim um grande livro. Quem sabe um dos melhores dos últimos anos. Garth propõe já de início a que vem e o logra: contar uma boa história; e se para alguns o livro não alcança o vigor de uma Fogueira das Vaidades (de Tom Wolfe) por exemplo, o autor consegue ao menos um feito: nos fazer devorar as centenas de páginas com prazer e quando vemos o livro acabou e queremos continuar, queremos continuar em Nova York, naquela Nova York, continuar por aquelas ruas e aquele clima, salvar a menina Samantha e dar sentido ao mundo.

Um dos motivos que fazem com que nos prendamos a história é que é uma sinfonia monumental baseada numa história policial simples. Uma garota é baleada no Réveillon de 76 e nós queremos saber até o final quem foi, se será punido e, mais importante, se ela se salva. Cidade em Chamas é um colosso onde se chocam uma variedade de personagens, urbanidade, violência, utopias, onde convergem jovens ricos e grafiteiros sem grana, jovens punks e galerias de arte, todos caminhando para o final tão bem construído por Hallberg, em última instância, um retrato assombroso da Nova York do final dos anos 70. Todos os personagens gravitam em torno da tentativa de assassinato de uma menina de 17 anos no Central Park, na noite de 31 de dezembro de 1976, enquanto fogos de artifício iluminam o céu da cidade. Enquanto ela está em coma, suas histórias vão se cruzar até o grande blecaute de 13 de julho de 1977, quando uma falha de energia geral mergulhou Nova York no escuro.

Alguns desses personagens são os Hamilton-Sweeney, uma das famílias mais populares e ricas de Nova York e que pertencem como sobrenome a dois personagens-chaves: Regan e Willian. Dois irmãos que se afastaram depois de muitos altos e baixos em suas vidas, como a morte da mãe, o casamento do pai com outra mulher e a chegada do irmão dela aos negócios da família. Regan e Willian se ligam a outros personagens que gravitam em volta deles e também do crime. O adúltero Keith, marido de Regan, conecta-se à adolescente fotógrafa baleada no Central Park (Sam), cujo corpo é encontrado por Mercer, namorado de Willian, um afro-americano recém-chegado à Nova York e professor de uma escola para meninas. Mercer, por sua vez, acaba sendo interrogado por Larry Pulaski, um detetive em decadência que tem um conhecido chamado Richard, aspirante a ser o escritor de um livro impactante, fazendo com que nessa jornada pela obra perfeita acabe conhecendo Sam e seu pai, se envolvendo mais em sua história do que deveria. E assim segue-se a trilha interminável de personagens e histórias em flashbacks constantes, compondo um thriller eletrizante. Garth Risk Hallberg consegue uma grande história utilizando várias formas para contá-la seja na forma de cartas, texto jornalístico, fanzine, costurando sua história com diferentes formas de narração. De certa forma o livro antecipa o Horror do 11 de setembro, mas acredita profundamente na humanidade ao exaltar o heroísmo e a determinação das pessoas, ou seja,  de nós, mesmo quando fraquejamos e colocamos tudo a perder, porque de uma maneira ou de outra temos que seguir em frente e, como diz Samuel Beckett, falhar, falhar de novo, falhar melhor.

 

 

Cidade em Chamas, Garth Risk Hallberg

Companhia das Letras,2015

Tradução de Caetano W. Galindo

Sergio Barboza

Estudante de Letras na UFSC, terminando TCC sobre Pedro Páramo de Juan Rulfo, apaixonado por livros, bandas de rock dos anos 90, jazz e café.