O que você levaria na mochila?

 

Minha coluna hoje vai fugir um pouco da literatura. Mas só um pouco. Em vez de falar de um livro ou de um filme falarei da relação entre eles e a vida, em como a arte nos ajuda a ver e entender o mundo de outra maneira. O drama dos migrantes sírios na Europa trouxe até minha timeline do Facebook por esses dias uma bela e triste série fotográfica. Consistia de várias fotos que mostram as poucas coisas que os sírios conseguem levar em suas mochilas na fuga desesperada da guerra civil que assola seu país. Imaginei-os escolhendo suas coisas, seus pertences; quais roupas levar nessa viagem que talvez não tenha volta? Quais sapatos? Quais fotos? E lembrei de mim, aos cinco anos, fazendo a mesma coisa, uma pequena mochila no chão vazia enquanto sentado sobre os pés pensava sério por muito tempo em quais brinquedos levar comigo e quais deixar. Não, não estava fugindo de uma guerra civil, estava acompanhando meus pais numa mudança do interior para o centro do RS por uma vida melhor. Mas a melancolia de deixar coisas que não caberiam na mochila e que provavelmente nunca mais veria carrego até hoje. Não uma melancolia total transformada em desespero como devem estar sentindo as crianças sírias, mas uma certa exigência de solenidade com os brinquedos que ficavam, com os livros de desenho que abandonava para que um caminhão de brinquedo da Coca-Cola com garrafinhas e tudo pudesse caber na mochila, com gibis velhos que minha mãe insistia que ficassem para não ocupar o lugar de minha escova de dentes.  Meus pais levavam as “coisas importantes”, com isso eu não me preocupava, a minha mochila era para as “minhas coisas”, brinquedos, livros, presentes de tios, souvenirs. Os sírios não tem essa escolha, não contam com mochilas separadas para as “coisas de crianças”, eles não podem levar brinquedos porque dificilmente terão tempo para brincar nessa travessia/jornada.

Foi aí que lembrei também de minha leitura de Vidas Secas anos depois na Biblioteca Pública da cidade para onde tínhamos nos mudado. Lembrei da relação que estabeleci naquele momento entre a saudade do sertão nos personagens do livro e a minha com a fronteira onde nascera e vivera até os cinco anos. E a relação que agora estabeleço entre Juliano, Sinhá Vitória, Baleia e os meninos sem nome, que assim como os sírios, apenas tem a missão de sobreviver ao atravessarem o sertão ou o mar no caso dos sírios, com a minha mudança e o fluxo migratório na Europa. Coisas ficam para trás e  sentimo-nos tão tristes em deixá-las mas hoje penso em como fui de certa forma sortudo. Minha casa não ficava para trás em chamas, bombardeada,  eu não deixava às minhas costas tios, tias, primos a mercê da violência, com ameças reais de morte, eu era arrancado com menos violência do útero, já os sírios estão sendo à fórceps. Mas a dor que uma criança sente ao deixar suas coisas não esqueci e sinto novamente a sensação de impotência e amargura pelas meninas e meninos sírios deixando quase tudo, talvez levando uma boneca, mas não muito grande para não tirar na mochila o lugar da mamadeira ou de mais cobertas, talvez levando um carrinho pequeno para não ocupar o espaço dos remédios na mala, levando um foto escondida nos bolsos, escolhendo  das lembranças da casa as mais pequenas, o destino e a necessidade especificando quais coisas vão com você e quais ficam. Carteiras de vacinação, boletim da primeira série, papinha de bebê, limões, esperança.

E espero que eles, apesar das dificuldades que encontrarão, possam seguir em frente, comprar novos brinquedos, novos livros, e assim como meus pais, minha irmã e eu reconstruir sua vida, e sonhando ou não com a volta,  que o seu lugar de origem melhore, assim como sonhavam Juliano e sua família de retirantes enfrentando a dura seca do nordeste brasileiro, assim como meus pais e avós com as Missões e aqueles que ficavam; e que na medida do possível as Baleias que ficarem pelo caminho descansem em paz, se não redimidas, livres da dor, que sejam trágicos lembretes para que tentemos não repetir nossos erros, para que a dor diminua, para que ouçamos outro retirante, refugiado, W. Benjamin, fugindo do horror, enquanto escreve “somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado”, ou “é uma tarefa mais árdua honrar a memória dos seres anônimos do que a das pessoas célebres. A construção histórica é (deve ser) dedicada à memória daqueles que não têm nome.”

 

 

 

Sergio Barboza

Estudante de Letras na UFSC, terminando TCC sobre Pedro Páramo de Juan Rulfo, apaixonado por livros, bandas de rock dos anos 90, jazz e café.