Redações zeradas no Enem: a leitura e a escrita no Brasil

Somos uma nação com grandes problemas. Historicamente, economicamente, sociologicamente. E pagamos o preço por negligenciarmos desde sempre um dos pilares com que se constrói uma nação, um país, enfim, uma comunidade que seja: a educação. Pagamos e ainda vamos pagar bem caro por negarmos principalmente as classes desfavorecidas do Brasil uma educação de qualidade.

A assustadora notícia de que 529 mil alunos ficaram com nota zero em redação nas provas do ENEM é, talvez, o clímax sombrio de nossa indiferença ao sistema educacional do Brasil. Mas pergunto-me, ouviremos mais esse sinal de alerta ou adiaremos continuamente uma reforma de nossos dispositivos pedagógicos? Enquanto educação for programa de governo/partido, meta de empresa para elevar a graduação de seus funcionários e não ação efetiva de estado/nação junto a população estaremos perdidos. Não é novo o fato de que a média de leitura do Brasil é baixíssima. E sem leitura não há escrita. Sem leitura extensiva não há escrita. Repetindo para os desavisados: não se escreve bem sem leitura. Jornais, revistas, gibis, bulas de remédios, enfim, mas lendo. E escrevendo também.

O que acontece no Brasil é que a educação em alguns espaços é totalmente desprezada. É comum ouvir (e isso desde que eu ia ao ensino fundamental) reclamações de porque aprender Bhaskara se nunca vou usar, e na mesma vibe porque ler Machado de Assis? Será que nos países com um sistema educacional mais organizado e elevado ouvem-se essas reclamações em números semelhante aos daqui? Sei que comparar realidades de países que tem histórias diferentes é algo que não leva a lugar nenhum, mas poderíamos começar a prestar atenção nisso: não se reclama por aprender, por arranjar mais conhecimento, ninguém vai perder uma perna por aprender Bhaskara e ler Machado de Assis, vai sim é fazer o cérebro trabalhar, exercitar a mente, agregar cultura, vai com conhecimento aumentar sua visão de mundo, é de disso que se trata afinal a leitura e a escrita. Reflexão.

É claro que temos que ter professores que também leiam e que saibam passar a paixão pela literatura, ou pela escrita, que saibam como fazer com que os alunos não odeiem Machado de Assis, e se for preciso usar Harry Potter, Crepúsculos e Jogos Vorazes da vida, beleza, mas vamos fazer com que leiam, escrevam, leiam mais, escrevam mais, releiam, reescrevam. Que aprendam a se expressar textualmente de maneira adequada, a explicar uma ideia, produzirem textos coerentes e coesos e isso não é pedir uma monografia não. Faltam discussões críticas nas escolas, textos opinativos, e o fato de que foi só apertar um pouco o tema (publicidade infantil- lembrando que no anterior o tema foi a lei seca, um pouco mais “fácil”) que as redações com nota zero aumentaram. Enquanto essa ideia geral de que conhecimento é algo chato persistir estaremos tentando furar paredes a prova de balas em vão. Enquanto desde pequenos formos ensinados a investir somente naquilo que vai dar “dinheiro” estaremos na mesma. Enquanto o governo federal usar aprovações para maquiar índices, cortar verbas para a educação (por que a educação meu deus, alguém explica essa lógica tiro no pé do sistema neoliberal?), desestimular a escrita dissertativa, não fortalecer as leituras (apesar do ministro da educação afirmar que a queda para o ano anterior em redação “não é significativa”) nossos gráficos de escrita/compreensão de texto ( e de mundo) continuarão estagnados.

Mas nem tudo é perdição. Ao mesmo tempo em que estamos com essa notícia assustadora digerindo em nossas almas, temos no país vários exemplos de quem tenta fazer algo diferente, de quem tenta mudar. O Movimento por um Brasil Literário é um desses exemplos, numa cruzada a favor de mais e melhores bibliotecas, compartilhando na internet exemplos pelo país afora de pessoas que trabalham pela educação, às vezes as margens de tudo. A revista Nova Escola e a página Guia do Estudante na internet também são duas boas amostras do que se tenta fazer de bom por aqui. E, além disso, temos nossas bibliotecas públicas, abandonadas, mas mesmo assim aí para disposição de seus cidadãos. Há como ler, é claro que são caros os livros nas livrarias, mas há as bibliotecas, sebos, e a internet com sua infinita quantidade de livros disponíveis on-line. Então, para aqueles que querem boas ideias e bons textos sobre o assunto seguem alguns link interessantes de projetos e instituições que trabalham a questão da leitura no Brasil:

http://www.newyorker.com/science/maria-konnikova/how-children-learn-read?mbid=social_facebook

http://www.revistaemilia.com.br/mostra.php?id=465

http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2014/07/literatura-nao-tem-de-partir-dos-classicos.html

http://guiadoestudante.abril.com.br/

http://revistaescola.abril.com.br/

https://www.facebook.com/revistanovaescola

http://www2.brasilliterario.org.br/pt/home

http://www.euquerominhabiblioteca.org.br/

https://www.facebook.com/capitulendo

http://www.bibliotecasdobrasil.com/2014/10/capitu-le

 

Sergio Barboza

Estudante de Letras na UFSC, terminando TCC sobre Pedro Páramo de Juan Rulfo, apaixonado por livros, bandas de rock dos anos 90, jazz e café.