O que é literatura?

kaváfis

A literatura pode salvar alguém? A literatura pode ser um espaço para se pensar o mundo em que vivemos? O que é literatura?  Literatura é, além de várias outras coisas, reescrever e melhorar 154 poemas durante a vida toda. São essas questões que mais ou menos vão balizar os meus textos por aqui e os convido para juntos olharmos e lermos o mundo através da literatura e também do cinema.

Passei a última semana pensando em que texto postar como primeiro desse projeto bacana que é o No Palco. Quanto mais pensava mais tinha certeza de que não deveria ser algo apoteótico, exuberante, e sim, algo simples. Algo que mesmo não sendo pop, não fosse também a vanguarda da vanguarda. Aí lembrei de Konstantinos Kaváfis. Conheci-o já na Universidade em 2012 e achei genial. Como alguém que escreveu “apenas” 154 poemas conseguiu ser tão influente?

Enfim, chamando para o lado simples da vida que demonstra ser ao final brilhante de tão trivial, aqui vai minha primeira coluna. Desfrutem.

 

Resenha de Poemas, Konstantinos Kaváfis, Cosac Naify, 2012

 

Começamos pelo título do livro. Nada de título aliás, e sim os nomes do autor e do tradutor entrecruzados. Os nomes, assim dispostos, já dão uma ideia tanto da importância do tradutor como da tradução transcriadora de Haroldo de Campos. O poeta de língua grega Konstantinos Kaváfis nasceu em 1863 e morreu em 1933 em Alexandria, Egito. Escreveu 154 poemas que só foram publicados em 1935, dois anos após a sua morte. Breves coletâneas em brochuras editadas por ele chegaram a sair em 1904 e 1910 distribuídas a grupos restritos. Como se nota, estava à margem das badalações e de publicações por grandes editoras. Publicou alguns poemas em alguns jornais onde trabalhou durante certo tempo como jornalista. Alguns de seus temas mais constantes eram a beleza, a história, e o confronto do homem com o destino e o amor. Ser de Alexandria, que à época era uma cidade cosmopolita, fez Kaváfis manter contato com muitos estrangeiros e com a literatura estrangeira também, principalmente a inglesa e a francesa. Também contou para isso os sete anos em que viveu na Inglaterra, de 1872 a 1879. Quando voltou para Alexandria a cidade vivia um fervilhamento cultural fim-de-século, em parte decorrência do recém construído Canal de Suez (terminado em 1869) controlado nessa época por ingleses e franceses. Mesmo não publicando nenhum livro propriamente dito, apenas folhas datilografadas e distribuídas entre amigos e intelectuais alexandrinos, Kaváfis foi um dos grandes renovadores da poesia grega moderna, com seus papéis avulsos e criteriosa elaboração de poemas. A edição bilíngüe da Cosac Naify deu atenção às traduções dos poemas com um fundo mais histórico, com temas que falam sobre a vida, o passar do tempo, a velhice, o fim, a vida como jornada poética, como em Melancolia de Jasão de Cleandro:

 

Meu corpo, minhas feições envelhecem

Ferida de pavoroso punhal

Suportá-la? Não sei como! Não tenho forças para suportá-la

 

Com seu sofisticado uso do idioma grego e suas variantes coloquiais Kaváfis trata principalmente dos temas míticos e históricos trazendo o passado glorioso dos gregos para o seu presente, usando a imagem dos mitos para demonstrar o seu lirismo. Erudição e cultura popular ao seu alcance, que ele adquiria, respectivamente, nas bibliotecas e nos bairros de má-fama de Alexandria, fazendo um diálogo poético com o passado, com Homero, com o Império Romano, personificando mitos e personagens históricas. E é incrível como através desses mitos conversa com a atualidade mostrando certo ceticismo com a época que lhe coube viver. Refletindo sobre a condição humana, criticando a sociedade cristã, usando figuras histórico-literárias para uma espécie de rememória íntima. E junta paganismo e cristianismo, antiguidade e século XIX para deixar fluir sua poesia, antevendo a decadência quem sabe, que num futuro bem próximo trará fanáticos religiosos dando as cartas em quase todos os lugares. Fazendo com que a cosmopolita e erudita Alexandria, onde conviviam judeus, cristãos e árabes, seja hoje algo tão estranho, impensável, e exótico aos nossos ouvidos. Apesar das poucas publicações em vida e do número relativamente pequeno de seus poemas Kaváfis é detentor de enorme influência no mundo literário. Como se fosse uma espécie de Velvet Underground da poesia. Poucos lançamentos, pouca divulgação e badalação em vida, gigantesca influência depois do fim. Um poeta que com obra tão pequena seja tão influente mostra a importância que esse lançamento da Cosac Naify tem.

Kaváfis nunca dava por pronto os seus poemas, sempre reelaborando-os, melhorando-os (escreveu apenas 154 poemas, mas trabalhou neles a vida toda, reescrevendo-os sempre). Mesmo depois de publicados em suas pequenas brochuras ele continuava reformulando e trabalhando em seus poemas, dotado de um perfeccionismo e um rigor notáveis. Fechando o livro há uma nota final onde o editor Trajano Vieira fala sobre o tradutor Haroldo de Campos e desse que se tornou um de seus últimos trabalhos, trazer/transcriar Kaváfis para o português. Dessas histórias e encontros, desse desencanto ilustrado, dessas trocas e negociações entre signos e significados, nasce o caprichado livro Poemas, de Konstantinos Kaváfis, na tradução fantástica de Haroldo de Campos.

 

Com vocês uma amostra do poeta grego:

À espera dos bárbaros

– Que esperamos reunidos na ágora?

É que hoje os bárbaros chegam.

-Por que tanta abulia no Senado?
Por que assentam os Senadores? Por que não ditam normas?

Porque os bárbaros chegam hoje.
Que normas vão editar os Senadores?
Quando chegarem, os bárbaros ditarão as normas.

– Por que o Autocrátor levantou-se tão cedo
e está sentado frente à Porta Nobre da cidade
posto em seu trono, portanto insígnias e coroa?

Porque os bárbaros chegam hoje.

 

 

 

 

Sergio Barboza

Estudante de Letras na UFSC, terminando TCC sobre Pedro Páramo de Juan Rulfo, apaixonado por livros, bandas de rock dos anos 90, jazz e café.