ANJOS URBANOS

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Esse não é um relato com o intuito de ter uma lição moral, um pensamento esclarecedor, um conselho, ou seja lá o que for que tua alma atormentada esteja necessitando. Não é nada disso. São palavras que achei necessárias serem escritas nesse entardecer sem sentido, sem horizonte e sem qualquer coisa que deveria haver prometendo reinos distantes e possíveis contos que fazem sonhar. São palavras sobre pombas e anjos, sobre fés que nos importam e sobre não sei o quê.

Parecendo sem rumo, perdida, uma pomba branca e tosca sobrevoava a multidão desatenta como um anjo desnorteado, insano, a procura de fé.

    As pessoas lá embaixo, andando ritmicamente, pareciam quase mecanizadas, e um não crer pairava nos olhares. A pomba tinha fé em qualquer coisa de pomba. Anjos tem fé em qualquer coisa de anjo. As pessoas já nem sei. Mas é preciso crer, acreditar, ter esperança em. É que a cada passo que damos, cada bater de par de asas solitário no céu, cada rastro de luz sem direção desfazendo-se no firmamento, são atos de fé. Põe o máximo de ti no mínimo que fizer… O contrário disso é viver sem crer, que é o mesmo que nada.

   Quando pousou, sem saber estar sendo observada por um prédio displicente, parecendo mais que nunca um híbrido, um misto de efêmero anjo com eterno rato com asas, a pomba só queria descansar um pouco. Mas havia certo perigoso silencio impregnado na atmosfera da caótica metrópole. Paradoxal: Silêncio no caos. A pomba não soube de nada disso, nunca saberia. Pombas não sabem, talvez não pensem… Mas sendo indesejado pássaro ou aclamado ser divino todos possuem o mesmo frêmito de vida que nos conduz a continuar. E havia tanta quietude em tudo, que ela voou novamente. O perigo da imensa quietude ameaçando toda a existência. O silêncio quando demais atormenta qualquer alma. Durou pouco o voo de fuga do potencial perigo que sentiu. Pousou sem vontade e ainda mais cansada no alto de um prédio silencioso, gigante colossal adormecido, digerindo corpos sem almas e exaustos no interior de suas entranhas: Anjos caídos devorados por inacreditável e poderoso titã. Descansou um pouco, lá no alto, ao lado de outras tantas pombas, como dominós lado a lado. Pombas não sabem, repito-me aqui, talvez nem pensem… Talvez. Não sabia ela que aquele cansaço, o voo cada vez mais curto, o instinto alertando-a, quase pronunciando a verdade inescapável e derradeira. Por não saber que sabia é que ainda pareceu suspirar muito fundo, inflou quase ao limite seu peito de pomba, parecendo preparar-se para o maior voo de sua tenra vida… Deu umas duas piscadelas ainda, e aí então.
Que o fim chega e chegará para todos, disso sabemos. Podemos fingir que não, as vezes, mas partindo da ameba, passando por nós, e chegando a todos os seres místicos, há uma força que não entendemos, raramente sentimos, tendo uma célula ou bilhões, asas que planam findas ou essências encantadas, estamos sujeitos a ela, essa força que não sabe-se força nem tampouco que nos conduz, apenas faz… é. É. E assim sendo e conduzindo tudo  para o inevitável, como um efeito dominó, de peças sortidas, quando a pomba caiu dando seu último suspiro de vida, breve insignificante anjo em queda, as outras não querendo testemunhar a inevitabilidade da existência, voaram uma a uma para cima como dominós em queda só que ao contrário… Descaindo uma de cada vez. Uma peça apenas, a tosca pomba branca, a força motriz do efeito exercido, caía, caía, caía parecendo vezenquando planar, sem planos.
Fez muito silêncio um instante antes de a queda concretizar-se. A calmaria antes da tempestade. Foi quando aquele pequeno corpo sem alma chocou-se contra o asfalto sem vida. Houve um estrondo muito alto. Ensurdecedor. Carros pararam, pessoas levaram as mãos para tapar seus ouvidos que doeram, alguns cães de rua uivavam incessantemente, então foi nesse momento.
Mas antes de falar mais sobre o fantástico efeito de uma pomba caída no asfalto apressado da cidade. Antes de insinuar anjos perdidos e caídos é preciso entender o porquê… ou não.
Lá no alto voando sem saber que a merda que faz lá em cima encontra a cabeça ou a camisa branca de alguém lá em baixo, a pomba só reconhecera o susto que o súbito estado de silêncio das coisas havia acometido à ela. Na direção oposta de seu planar havia o oposto: Pés quase colados no chão, compassados na marcha do cotidiano. Plaft! Plaft! Plaft! Solas e saltos na calçada calejada. Murmúrios sobrepondo-se, motores cuspindo fumaça e pressa, o concreto e o aço das construções estalando parecendo ganhar vida própria. O som do caos, da marcha que não sabe que marcha, e que vai. Vai.
Esquerda, direita, esquerda, direita. Marcha! Soldados que não lutam. Nas mãos carregam armas de destruição em massa, nas cabeças levam a superficial e aparentemente bela imagem da massa em perfeição. Há barulho em cada partícula sonora da atmosfera. Mal se ouvem, pouco se olham, quase não se falam. Marcham apenas. Esquerda, direita, esquerda, direita. Pelotão treinado pronto para ser abatido, a fim de dar continuidade à guerra. Que a luta é para que a atrocidade submetida às existências não pare. Continue obliterando fadas, devorando sonhos. Mera engrenagem de sangue, carne e ossos fazendo todo o mecanismo continuar em movimento, alimentando de mesmices e repetitices toda a máquina, para que o sistema falho não falhe. Há barulho para que não seja possível ouvir o clamor dos fracos e oprimidos, há deturpações da visão para que não enxerguemos o sofrimento no fundo do olho daquele que por nós passa, há falta de fé para que não tenhamos esperança, há falta de toque, afeto e ternuras para que não sintamos que o que realmente importa não se compra. Há falta da falta que nem sequer sabemos que sentimos daquela força que conduz pombas, homens e anjos para o certeiro fim. É que tanta coisa inútil nos sobra que quando o essencial nos falta não percebemos. Assim marchamos. Esquerda, direita, esquerda, direita… alto!
Talvez por isso, quem sabe, ou talvez, porque deuses revoltados e há muito sumidos resolveram repentinamente manifestarem-se. Foi que naquele fim de tarde poluído e suarento que o leve e estéril corpo de uma pomba fez um estrondo quando caiu jazendo para sempre, interrompendo o movimento das coisas, que subitamente, desacelerando o passo, levantando os olhos, todos puderam reconhecer-se como pessoas. Uma humanidade de repente revelada. Uma mortalidade escancarada na palidez das faces que se contemplavam, desconcertadas. Houve por um momento de tempo certo perigoso silêncio dominando aquela hora suspensa no tempo. Perigoso silêncio. O que restava a todos aqueles corpos que sem mais nem menos descobriram possuir almas? Que restava à marcha que não marchava e não mais ia? Que restava se não reconhecerem e admitirem a condição de sua humanidade? E que restava ao medo da ausência de barulhos, do caos, da perdição a que estavam habituados? Não sabiam. Talvez assim como as pombas, pessoas também não saibam.

   Haviam outros caminhos, com outras verdades, onde anjos e pombas voam juntos em um mesmo perpétuo e seguro céu azul. Sim sempre é momento para acreditar. Mas toda fé do mundo é pouca se não reconhecida, não aceita. Que restava então se não continuarem a marchar? Se só sabiam a marcha. Não se ensinam novas maneiras de andar para aqueles só reconhecem um caminho, um único jeito de trocar os passos.
Indiferente a tudo e todos um corpo de parcas penas jazia como que tatuado no asfalto. Aos poucos os olhares recuperavam suas ausências, sapatos e tamancos retomavam disrítmicos plafts! Aos poucos os motores recordavam atrasos e poluição. Aos poucos titãs com centenas de olhos vomitavam anjos sem asas por bocarras giratórias, e entupiam as ruas com vazios imensos, mas aos poucos…

   Que algo acontecera: Um descompasso, uma quebra de passada, um vacilar do todo. Que permitiu que os olhares abaixados pudessem ver em meio a pernas brancas, pretas, amarelas e embalagens da imundície do homem: um serzinho morto no chão. Parecia muito com um anjo de asas abertas. Alguns diriam se perguntados, que havia réstias de uma luz que brilhava, mas não cegava, saindo das penas do híbrido rato com asas. Um pequeno milagre na urgência descrente do dia.

(JONATAN O BORGES)13662607_919405098169880_211504791_o

Jonatan O Borges

Jonatan O Borges - "Corpos (IN) Versos". – Poeta performático, ator, mediador de leitura (Proler), contador de histórias, editor de conteúdo da Entreverbo Revista, Ativista cultural, filho da lua e ser aberto à possibilidade da existência de tudo.