A Mãe de barro

A mãe de barro 

Para a senhora Marlene (flor filha) que contou.

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Maria é Mãe, pronto. E são tantas Mães-Marias por aí. Cada qual com singular história. Uma fazendo valer mais que outra a significância do nome. Todas carregando no ventre a germinancia do mundo. Marias são terrosas: abrigam e dão vida. Se moldam ao que lhes é ofertado. Não são fazidas, fazem. Com sentimentalidades adubam o tempo. Através da entrega que permitem-se à vida fazem brotar estórias alimentadoras de nossos cansados espíritos.
Que era Maria e não sabia. Soube disso só depois de muitos ciclos. Quando menina não compreendia o gênesis do nome. Carregava a terra embaixo das unhas, espinhos nas plantas dos pés. Era uma Mariazinha criança, vezenquando seus dedos frágeis acariciavam cabelos de maltrapilha boneca, só então uma Gaia adormecida ameaça irromper de dentro pra fora, certa desentendível clareza nas coisas. Mas não se sabia Maria, tão pouco potencial progenitora, só reconhecia a incontida infância. E os anos foram passando.
Uma Maria mulher tomou o lugar da outra de passada infância. Essa outra viveu em constante intensimentos e descobridades. Cada sementosa novidade no exercício constante de viver. Teve seus amores, rompantes e repentes suspiros, até que escolheu um: mãos grossas e calejadas de lavrador trabalhando nos sulcos de sua pele. Conheceu o gosto de adubantes carinhos, o cheiro outonal de molhada epiderme, e a sensação de terra germinada no ventre, planta de inevitável vida crescendo dentro dela.
Trouxe ao mundo três vistosas flores para alegrar o jardim da existência. Quanto mais as flores cresciam e tomavam derradeiras formas, mais vida a Mãe-Maria-Mulher sentia crescer dentro dela tomada por uma necessidade de terra: progetetora. Cuidou para que insetos mal intencionados não machucassem as pétalas, expulsou do jardim um ou outro beija-flor travesso, e regou-as todos os dias com amor e ternura enquanto o tempo passante.
Em nosso mundo a vivência tem dessas coisas que acontecem sendo que não deveriam. Por essa razão que não se explica, quis o destino que as duas primeiras flores fossem enfeitar mais cedo, do que sua progenitora, o jardim do outro plano, deixando com que a flor caçula confortasse e cuidasse das formas que tomavam os sentimentos dentro do canteiro barroso no peito de uma já cansada Gaia.
Que o coração tão vivido sofria vezenquando de molencias incontidas. Principalmente nos dias invernosos de incessantes frio e chuva. Quase sempre, nesse dias, chorava olhando os enredos repetidos de novelas que faziam lembrar e lamaceavam ainda mais o coração. Certa vez a filha-flor foi tirada do trabalho às pressas: “A sua Mãe-Maria-anciã estava no hospital!”. Sofrera uns sobressaltos na alma. Sua natureza terrosa quase não resistiu à notícia da morte de um desse galãs dos folhetins. “Estava velha, mas não morta!” Sentenciou à filha, com uma certa dor nos olhos.
Agora só lhe permitiam longos repousos. Os netos, sementes de suas sementes, revezavam-se em constante vigília. Que a Mãe-Maria-Vó-Debarro não podia mais alguns esforços. Restou à ela manhãs intermináveis, tardes que nunca acabavam, sempre sentada na varanda contemplando um quintal tomado por sonhos de liberdade: passáros cantantes. Alimentava os leves e plumados sonhos com farelos e pedaços de frutas que lançava no solo com seus dedos trêmulos. Fez amizade principalmente com os Joões-de-Barro, talvez por estes terem uma essência de terra: raízosos onde a vida lhes apetece. Talvez eles soubessem a pureza do barro dentro do peito dela. Talvez. Aos constantes cuidados mais algumas primaveras passaram.
Na noite que precedeu o inevitável a flor caçula teve um sonho: A mãe sempre tão casta, bonita por natureza, arrumava-se afoita para uma festa. Toda maquiada e perfumosa dentro de alvo vestido cantava alegremente. Sirigaitando. Quando perguntada onde iria, respondeu com imenso jovial brilho nos olhos que iria encontrar com a sua irmã Tereza para irem a um certo baile… Foi quando em algum quarto escuro em outro bairro da cidade a caçula acordou aos prantos. Falando sozinha, em aparente delírio, que a mãe não podia, que não não fosse com a tia, que a tia já.
Tudo parecia em ordem. O tempo aquietara-se. É sempre assim. Foi numa tarde muito molhada de inverno, depois de uma noite em que o fato foi comunicado por anterior sonho: Mãe-Maria-Debarro não acordou. O corpo todo frágil e ainda mais barroso em cima da cama. Sem centelha nenhuma de vida. Vieram os parentes todos, os vizinhos de sempre, e fazia um frio de endurecer a terra.
No funeral o céu chovia. Os olhos também estavam chuvosos. O barro que grudava nas solas dos sapatos parecia também embarrear as almas que amolecidas e moldáveis não sabiam dar forma para o que sentiam: se felicidade pelo merecido descanso de quem doou todo o amor que tinha para o mundo, ou tristeza pela partida de uma pessoa que ninguém queria que partisse.
Antes que a última pá de barrosa terra comunicasse o fim do ritual de despedida, o céu cessou de água, uma réstia de luz rompeu a barreira cinza das nuvens, e amarronzados pequeninos pássaros descerem por ela em suave voo. Havia um silêncio enorme em tudo. Quando os Joões-de-barro pousaram ninguém se olhou, ocupados que estavam contemplando o pequeno milagre. Eram três: sinceramente pareciam mãe e filhas, íntimas. Rufaram brevemente os minúsculos peitos cobertos de penas marrons. Cantaram demoradamente. Recolheram com seus respectivos bicos um pouco de barro. Então voltou a chover fina garoa. Os pássaros alçaram voo sumindo no infindo… E foi lindo.

(Jonatan O Borges)

Jonatan O Borges

Jonatan O Borges - "Corpos (IN) Versos". – Poeta performático, ator, mediador de leitura (Proler), contador de histórias, editor de conteúdo da Entreverbo Revista, Ativista cultural, filho da lua e ser aberto à possibilidade da existência de tudo.