Um caso de asas

UM CASO DE ASAS 

” Tem texto novo No Palco. Um breve conto de uma experiência pessoal. Que me fez acreditar na poesia pra sempre…”

                                 12304491_558101047673734_7422033060998244046_oFoto: Suyá Monteiro

    Certa vez uma libélula voava na altura dos olhos das crianças na saída da escola. Havia certa magia na ignorância de sua condição natural de inseto que desconhece a maldade, pois sua vida é tão frágil e breve que nada mais resta a uma libélula do que voar descuidada de si na urgência de viver e viver-se. Não sabendo do perigo, ela voava em meio a infância que explodia na rua. Que explodia como num reino fantástico. Um menino tentava acertá-la com uma pequeno galho seco… Um menino tentava acertá-la! O menino tal como a libélula, ignorante que era de sua condição humana, nem sabia o motivo daquela súbita vontade de destruir a beleza daquele serzinho em pleno voo: O caçador, o dominador desperto. Tudo é muito inconstante quando criança, a vontade de se fazer algo passa, e dá vontade de fazer um outro algo. Sua atenção voltou-se para outra cena. Ele não conseguiu destruir nem destruir-se. E que alívio sentiu um outro menino que contemplativo observava toda a cena. Um alívio de poder ver… ver que em tudo aquilo havia uma beleza que transcendia eras, e saber meio ainda ignorantemente, pois ainda era só um menino, que não se tratava da vida da libélula ou da ação destrutiva do outro menino: Ali havia um encontro das forças que regem o firmamento: Vida e morte numa eterna valsa de tão linda dança, e com qualquer coisa de tango de tão trágicos que são os bailarinos. Até hoje não sabe se (o que testemunhou após a ação inútil do menino ) foi um prêmio-graça-benção ou castigo-penitência-carma que seus olhos e alma receberam no instante seguinte: A libélula voou ainda vacilante e meio indecisa em sua direção e tinha muito sol e era inverno e tinha um vento gelado e tinha também uma infância solta e muitas possibilidades encantadas em toda parte e um inseto que por um breve momento em seu voo arriscado e tão natural fez como faz o beija-flor: Ficou paralisado em pleno voo, suspenso no ar… em frente aos olhos da criança e se foi só por causa da luz do sol ou um delírio infantil, ele nunca soube ou saberá, mas as asas da libélula emitiram-refletiram uma luz de um dourado tão intenso e forte e bonito, e ele ainda não sabia o termo correto pra contar pra mãe quando chegou em casa, ofegante, suarento, mas falava sem parar, ininterruptamente daquela coisa redonda que brilha na cabeça dos bebês no quadro da sala junto com aquele homem barbudo na cruz, e que eram assas enormes e sentiu certa sagrada paz e… e… e… Que ele achava quê.

(Jonatan O Borges)

Jonatan O Borges

Jonatan O Borges - "Corpos (IN) Versos". – Poeta performático, ator, mediador de leitura (Proler), contador de histórias, editor de conteúdo da Entreverbo Revista, Ativista cultural, filho da lua e ser aberto à possibilidade da existência de tudo.