Carpe Diem- Uma epidemia

Carpe Diem-Uma epidemia 

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Para: Sérgio Vaz, Gustavo Ribeiro, Marcelo Rutshell, Anderson Kubiaki, Déia Aquini, Juliane Chaves e tantos outros infectados por aí.

    Ninguém sabe com quem ou como e quando começou. Os sintomas iniciais sempre tão sutis passavam despercebidos: Despertar em uma madrugada ou outra, sentir certa inquietação, estranhar normalidades. Mas até aí tudo bem: Eram coisas do espírito. Ninguém se preocupou em procurar ajuda médica, e quando o faziam os exames nada mostravam: “Talvez um final de semana no campo…”, Indicavam alguns doutores.
Passado algum tempo o corpo começava a mostrar suaves indícios de que algo acontecia: O coração que palpitava um pouco mais forte quando à presença de ocasos e luares, uma náusea incômoda querendo subir e um nó indesejado querendo descer, as mãos acometidas constantemente por tremores que só eram controlados quando rabiscavam versos avulsos: Guardanapos de cafés eram os alvos prediletos, e o pior (Ou o melhor por que não?) : Olhos fixos e perdidos no horizonte.
À partir daí os agravantes faziam-se inevitáveis: reuniões noturnas regadas a bons vinhos, rimas tomando formas eternas, versos inquietos sendo soltos a esmo, mais vinhos e encontros, certa poesia invadindo a dureza das horas. De repente aconteceu: Como sujeitos a um patógeno muito contagioso, uns aqui outros ali, pessoas começaram a colar poemas por aí: Em postes desprotegidos, caixas de correio por cartas esquecidas, lixeiras desavisadas, paradas de ônibus desatentas e sempre tão comuns.

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Algumas poucas notas em rodapés de jornais de pouca tiragem. Relatos de um ou outro ouvinte noturno dizendo estar preocupado com. Então vieram manchetes, chamadas nas capas dos principais meios de comunicação, reportagens inteiras sobre a loucura se apoderando das pessoas sujeitas a poesia que estava em todos os lugares: Sem dúvida tratava-se de uma epidemia, concluíram as autoridades incompetentes. E ela não se limitava apenas aos infectados. Todos de uma forma ou outra eram atingidos pela manifestação patológica em seu ápice: Nas firmas e empresas funcionários paralisavam as atividades para contemplar os poemas espalhados pelos muros da cidade. Nas escolas, cursos, faculdades todos discutiam veementemente sobre o que queriam dizer os versos espalhados. Nas ruas a fofoca diária era a poesia. As delegacias encheram-se de boletins de ocorrência onde comerciantes diziam-se lesados pela poesia colada: ela desviava os olhares das publicidades, fazia com que as pessoas parassem, pensassem, tivessem vontade de.
Cientistas do mais alto escalão foram chamados. Reuniram-se. Pesquisaram dia e noite. E por mais que tentassem desenvolver remédios, inibidores poéticos ou curas momentâneas, nada conseguiram. Não se remedia a necessidade de mudança da alma. Não se cura o que remediado está.
Todas as forças militares foram mobilizadas. Uma ordem apenas: proibido terminantemente colar poesias, espalhar versos, sensibilizar o cotidiano das coisas. Coturnos aos milhares foram fiéis e quase exitosos em sua desumana tarefa: Aos poucos os poemas começaram a envelhecer nos postes, nas caixas de correio, nas lixeiras, nas almas… Novos textos eram impedidos de serem colados. Haviam olhares vigiando em cada esquina. O sentimento proibido. As pessoas passando umas pelas outras estranhas novamente. A paisagem reta e cinza do dia a dia recuperando aos poucos sua esterilidade habitual. E passaram-se anos.
Não haviam mais resquícios aparentes da epidemia de outrora. Sintomas escondidos na solidão das individualidades. Cada vez mais e mais vinhos noturnos e encontros mais do que nunca sigilosos. A força que repreende o que não entende, aquietou-se. E tudo parecia em perfeita ordem para quem o limitado e didático importava mais que tudo. Parecia.
É que quando um ou outro poeta se arriscava a olhares que encontram olhares: Era possível sentir a poesia das retinas saltando para fora. Nessa época era comum frestas de cortinas nas casas, nos apartamentos, janelas entreabertas: Geralmente ao pôr do sol, frequentados por olhares desejosos de horizontes.
(Jonatan O Borges)

 

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Jonatan O Borges

Jonatan O Borges - "Corpos (IN) Versos". – Poeta performático, ator, mediador de leitura (Proler), contador de histórias, editor de conteúdo da Entreverbo Revista, Ativista cultural, filho da lua e ser aberto à possibilidade da existência de tudo.