“Bingo: o rei das manhãs” é uma viagem pela década de 1980 – Por Israel Lee

Critica

Baseado na história de Arlindo Barreto, o filme cria seu próprio mundo fictício a fim de fugir de problemas com direitos autorais. Por isso, o famoso palhaço Bozo vira Bingo, Arlindo vira Augusto, a Tv Globo vira Tv  Mundial,  o SBT vira Tv P e a Gretchen...bem, essa continua sendo chamada de Gretchen no filme. Toda essa liberdade artística traz ao longa de estreia do diretor Daniel Rezende (indicado ao Oscar de melhor edição por “Cidade de Deus” , em 2003) ainda mais charme.

Cansado das pornochanchadas e após se sujeitar a papéis secundários em novelas da emissora líder de audiência, Augusto Mendes (Vladimir Brichta) vê a chance de ter seu talento reconhecido quando surge a oportunidade de participar de um teste na emissora concorrente. O papel? O do palhaço que já era sucesso de audiência nos Estados Unidos.

Com seu jeitinho brasileiro e aproveitando-se do fato do produtor norte-americano não falar uma palavra de português, ele usa de toda sua malícia e põe operadores de câmera e demais presentes no estúdio às gargalhadas com seu linguajar chulo.  Mesmo sem entender, o tal produtor o escolhe para comandar o programa que ocuparia a grade matinal da Tv P.

À medida que vai ganhando liberdade para fugir do roteiro enlatado do original, o palhaço vai somando à improvisação traços do ator que o interpreta: a sedução, a malandragem e a fúria, ingredientes à primeira vista incomuns quando se pensa no universo infantil. Mas é justamente nessa gangorra entre a inocência de seu público – às vezes nem tão inocente assim – e os deslumbres da fama – mesmo velada por detrás da maquiagem – que o personagem vai crescendo em intensidade e se tornando um dos papéis mais interessantes dos últimos anos do cinema nacional.

Quando a Gretchen de Emanuele Araújo (sensacional!) entra no palco do programa dançando “Conga, Conga, Conga” com Bingo e com as crianças da plateia, já é possível perceber a falta de limites na busca pelo primeiro lugar de audiência. É a deixa perfeita para que o roteiro explore a falta de limites de Augusto Mendes também fora da telinha, como o abuso das drogas e orgias e o afastamento do filho, importante fio condutor da história.

Outra personagem significativa é o interpretado por Leandra Leal: o de diretora do programa e alvo de investidas do palhaço. Evangélica e possível “tábua de salvação” de Augusto na parte final do filme, não deixa de ser irônico observar o fato de que alguns anos mais tardes, os pastores também teriam lugar na grade de programação das tv’s, talvez também seduzidos pelo showbiz.

Dizer que Vladimir Brichta está excelente no papel principal ainda seria dizer pouco. Mas dizer que o filme se mantém em alto nível graças à sua atuação é também ser injusto com a bela direção, a ótima trilha sonora e à incrível fotografia do longa. É a junção de tudo isso que faz de “Bingo: o rei das manhãs” uma tragicomédia pop e imperdível!

 

Título do filme: Bingo: o rei das manhãs

Direção: Daniel Rezende

Elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Tainá Mueller