Crítica do filme Divinas Divas – por Israel Lee

Critica

"Cansado de tanto amar/ eu quis um dia criar/ na minha imaginação/ uma mulher diferente/ de olhar e voz envolvente/ que atingisse a perfeição". O trecho, parte da canção "Escultura" de Nelson Gonçalves, pode ser  ouvido na abertura de "Divinas Divas", primeiro longa metragem de Leandra Leal. A música serve de fundo para a sensacional colagem de fotos preto-e-branco de homens se transformando em mulheres coloridas, cheias de maquiagem, brilhos e paetês. É assim que somos apresentados às artistas travestis Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios.

Talvez seja necessário destacar aqui a palavra artista, afinal, como declara Jane di Castro à certa altura do filme, "Ninguém se transformou para se prostituir". Esta frase talvez seja a que melhor sintetize o que se vê na tela nas quase duas horas de projeção. Ficção de si mesmas,  o palco do teatro provavelmente tenha sido o grande responsável por tê-las tornado possíveis, também, na vida real.

Figura conhecida, Leandra Leal raras vezes aparece em frente às câmeras, mesmo sendo, ela própria, fio condutor da narrativa, já que o teatro responsável pela projeção das divas lá na década de 1960 pertence desde essa época à sua família, e ela, embora criança, tenha testemunhado tudo da coxia. Sua voz sim, em off, está sempre presente, costurando os depoimentos.

Em meio aos ensaios para uma nova apresentação no palco do mesmo teatro em que desafiavam à repressão da ditadura militar, as artistas vão sendo retratadas uma a uma, com delicadeza poética, como se as enxergássemos com o olhar amoroso da diretora.

À medida que vamos adentrando a intimidade das divas, a narrativa vai perdendo um pouco da lantejoula do início, e vamos percebendo que as dificuldades talvez não tenham sido tão diferentes do que àquelas enfrentadas pelas travestis das ruas.

É aí que o filme ganha corpo. Um corpo idealizado, agora marcado por rugas - num país onde a média de vida de uma pessoa trans é 34 anos. Um corpo  tantas vezes machucado pela sombra do preconceito,  inclusive dentro de casa, como fica evidente na fala de Marquesa, internada em um sanatório pela família e que, para não ofender a mãe, decidiu travestir-se apenas no palco. Não à toa, Marquesa é a única retratada que se deixa filmar com roupas masculinas no filme.

Idealizado em 2014, "Divinas Divas" teve dificuldades de captação e demorou para ser concluído. Uma das biografadas, Marquesa, faleceu antes de ver o filme pronto. De qualquer forma, o documentário vem à tona em momento importante do país, onde uma forte onda conservadora faz a história de artistas travestis populares até parecer ficção.

"Eu sou o travesti da família brasileira" fala Rogéria, com orgulho (e usando para si, o artigo masculino). Mas o que será que ELA quer dizer com isso?

Lançando um olhar superficial para o cenário artístico atual, onde uma trans é retratada em novela da Globo e artistas surgem desafiando os rótulos de gênero, até parece que vivemos tempos melhores. Mas é só olharmos para as estatísticas que comprovam a matança da população LGBT no Brasil-  recorde em 2016, com 347 mortes -, para que a realidade logo nos acorde.

Mas, como Leandra Leal reitera nas entrevistas que tem concedido, seu filme não é sobre ser travesti. É um filme, sobretudo, sobre oito artistas, que entre outras características, são travestis.

Embora por um lado o cuidado na edição em dar igual visibilidade a todas as retratadas seja uma demonstração do respeito de Leandra Leal com as artistas, por outro, torna a duração do filme um pouco cansativa. Mas nada que prejudique o resultado final e a sensação de profundo amor - à

arte e à si mesmo - que diretora e protagonistas produzem no espectador ao final da projeção.

"Divinas Divas" é nosso "Priscila, a rainha do deserto", só que com ainda mais verdade e emoção!

 

Título do filme: Divinas Divas

Direção: Leandra Leal

Elenco: Jane di Castro, Rogéria, Divina Valéria, Camille K., Brigitte de Búzios, Fujika de Holliday, Fujika de Holliday, Marquesa.